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Opinião

 

 

Competência vence Favoritismo e “Modernismo”

Por Ricardo Almeida

 

 

 

Uma máxima do futebol diz que o jogo se ganha é dentro do campo. E é verdade. Poderia citar vários exemplos aqui, mas só preciso de um para que fique claro. Em 1998, a seleção brasileira era considerada, antes mesmo de começar a copa, como favorita absoluta ao título, e deu no que deu. A França, até então correndo por fora, mesmo sendo o país sede, deu um verdadeiro baile na final da competição e o Brasil nem viu a cor da bola, sendo derrotado por incontestáveis 3 x 0. Comandada por Zidane, mostrou que a união e garra de um grupo pode fazer diferença, mesmo sendo considerado inferior ao adversário. E no carnaval deste ano aconteceu mais ou menos a mesma coisa.

As ditas favoritas Beija-Flor e Unidos da Tijuca estão se perguntando até agora o que aconteceu, e tentam assimilar o duro golpe de ficar apenas com a quinta e sexta colocação, respectivamente. Quem também aumenta o choro dos descontentes é a Mangueira, quarta colocada. Na verdade, a explicação pode ser vista de forma simples.

Na Unidos da Tijuca, o modernismo virou mesmice. E nem é tão modernismo assim o que o carnavalesco Paulo Barros vem mostrando nos últimos dois anos. Para quem se lembra, colocar figuras humanas integradas aos carros alegóricos vem de longe. Mais precisamente no ano de 1993, com a própria Vila Isabel. Com o enredo “Gbala – Viagem ao Templo da Criação”, o então carnavalesco da escola, Oswaldo Jardim, mostrou um carro onde a idéia era de que a vida nascia do barro, e colocou 40 pessoas em cima do carro alegórico, dando um movimento na alegoria até então inédito. Foi um desfile belíssimo, a Vila saiu como uma das favoritas, e no final amargou um modesto oitavo lugar. A diferença é que naquela época não havia coreografia, e as pessoas apenas brincavam em cima do carro. Então, o que Paulo Barros vem fazendo é o aprimoramento desta idéia de treze anos atrás. O resultado, sem dúvida, é fantástico. Um efeito muito bonito, quando bem feito. No ano passado, os críticos e jurados ficaram de boca aberta com o carro do DNA apresentado pela Tijuca. E acabou aí. A verdade é que este ano os jurados, que são praticamente os mesmos do ano passado, viram com outros olhos este trabalho e a escola tomou apenas uma nota dez no quesito Alegorias e Adereços. A nota 9,3 conferida ao quesito fantasia também não me causou surpresa. Colaboradores nossos viram de perto e afirmaram que as fantasias realmente estavam mal acabadas. Tiveram a falta de sorte de um jurado perceber isso. Pessoalmente, acho também que a bateria da Tijuca é meio “embolada” e imprimi um andamento rápido demais, o que pode ser confirmado pelas notas obtidas.

A Beija-Flor pecou já pelo enredo. Confuso e oportunista, não decolou. As notas são implacáveis. Nenhuma nota dez no quesito Enredo. Daí para o precipício foi um pulo. A única coisa louvável no desfile foi à bateria de Mestre Paulinho. Sensacional. Ritmo forte e cadenciado foi o diferencial da escola. E só.

Quanto a grande campeã, Vila Isabel, é preciso dar o crédito merecido à escola, e acabar com essa polêmica de que a escola só venceu porque o Governo da Venezuela financiou o desfile.

Todas as escolas do Grupo Especial se beneficiam de algum tipo de ajuda privada já não é de hoje. A Mangueira, por exemplo, obteve financiamento durante muitos anos pela então gigante Xerox. Até hoje se encontram alusões a esta empresa na quadra da escola. E ninguém achou estranho. Até hoje, escolas recebem ajuda do jogo do bicho e ninguém também fala nada. Acham tudo muito normal. Nenhuma escola, hoje, consegue fazer um belo carnaval sem algum tipo de ajuda. Os desfiles do Império Serrano e Portela confirmam isso. Estão vivendo apenas de bilheteria de seus ensaios. Essa é a verdade. Só que com a Vila, os holofotes ultrapassaram fronteiras, e foi parar no campo político. O Governo da Venezuela tem em seu presidente, Hugo Chávez, uma figura polêmica, e fiel adversário do Governo Bush e suas políticas burras. A vitória da Vila foi notícia nos principais jornais do mundo, dando esta ênfase. Chegou à beira do ridículo. Porque não falam do financiamento que a Prefeitura de Poços de Caldas deu a Beija-Flor, e que foi um verdadeiro problema para o governo daquela cidade explicar porque deu quinhentos mil reais a escola carioca e não ofereceu a mesma verba para que as escolas daquela cidade pudessem fazer um belo carnaval. A explicação, esdrúxula, foi que era verba de publicidade e que ia ajudar a melhorar a imagem da cidade. Até hoje, escolas de samba e oposição não engolem esta explicação.

Para quem conhece a Unidos de Vila Isabel, sabe que esta diretoria e a anterior, com Evandro “Bocão” no comando, vem dando uma cara nova à escola. No ano passado, a Vila só não ficou entre as campeãs por problemas em suas alegorias, infelizmente. Mas já vinha mostrando visivelmente uma postura de escola grande. A organização fez a diferença. O presidente “Moisés” fez um trabalho de formiguinha e, com todos os méritos, conseguiu receitas para que a escola pudesse mostrar um belo carnaval na avenida. Aliado a isso, a comunidade e o chão da escola fizeram o diferencial. E a escola desbancou as grandes. Ou melhor, atropelou as grandes. Hoje, para que uma escola consiga furar este bloqueio das escolas grandes, tem que se superar. E a Unidos de Vila Isabel foi insuperável. No meu comentário logo após o desfile, já havia dito que a Vila tinha feito um desfile de campeã.

Então, não podemos tirar o mérito da escola. Fez um desfile correto e tecnicamente perfeito, e culminou com o campeonato, mais do que merecido, e deixando claro um recado para as demais agremiações de que nem sempre o favoritismo ganha carnaval.

 

Um abraço a todos.

Ricardo Almeida

 

 

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