tradição do samba

Últimas Notícias:

 

Opinião

 

 

phillip nascimento

E COMO ENCONTRATAM, TAL QUAL ENCONTREI; ASSIM ME CONTARAM ASSIM VOS CONTEI...

 

 

Por Phillip Nascimento

 

 

 

 

Preâmbulo
"Cada era que atravesso mais se enterram meus alicerces e descem meus pisos com suas pilastras, assim diminuo tal quais os homens quando envelhecem."

 

Dá Licença. Muito bom poder retomar as nossas proveitosas conversas aqui neste espaço. Espero que os senhores não tenham cansado da minha ausência e tenham mudado de canal... Aliás, mudança de canal mesmo foi a que presenciamos nesse período de desarmar a barraca já pensando no outro dia de feira. Pois é... Contaram-me os ventos, antes mesmo que dessa verdade toda tomasse tento, embora já imaginasse os capítulos que viriam após o último carnaval... E depois de tanta mutação, a única que permanece intacta é a Beija-Flor. Anísio não dispensou nem a faxineira de sua residência. E essa equipe consolidada certamente é um dos caminhos do sucesso. Porém, enquanto não se aprende definitivamente esta lição básica, primária, o jeito é sentar e esperar o próximo embate entre “Os Mutantes” e “A Favorita”. Continuemos...

Pois bem, vamos ao que interessa. Passar um longo período na geladeira muitas vezes pode nos ser de grande serventia, haja vista que, bem ou mal, há certo distanciamento do objeto constantemente estudado, observado. Pois foi tão somente o que aconteceu. Pegando carona nessa fase de apresentação dos enredos para o próximo carnaval, em que a arte de contar histórias na Sapucaí através dos temas que para ela são levados começa a ser esboçada através das sinopses, venho com uma espécie de exercício da metalinguagem para encontrarmos uma importante peça deste quebra-cabeça, peça esta de fundamental relevância no confronto entre Eras distintas e, conseqüentemente, visões de como desenvolver a arte de contar histórias na avenida também distintas, como forma de perpetuá-las no imaginário popular e disseminá-las por gerações afora, da mesma forma que acontece em regiões como o Norte e o Nordeste do Brasil, por exemplo, em que o simples ato de contar histórias faz parte do cotidiano, retrata a vida das pessoas como uma real testemunha dos fatos, dos momentos de medo, alegria e bravura do povo.

Assim sendo, se fossemos fazer uma reflexão ou até mesmo apontar a grande testemunha secular da história do carnaval carioca, quem seria esta ilustre figura? Quem atravessou o século sendo altamente onipotente dentro de seus limites e presenciou revoluções, transformações, alegrias e tragédias do carnaval carioca? A História? Sim, mas qual história? A “versão oficial” dos fatos, tal qual a versão do Brasil que a Mangueira vai levar para a Sapucaí em 2009 ou a versão deste mesmo país que esta mesma escola cantou em 88? Os livros? Não. É mais que evidente que tais registros são de suma importância e que constantemente nos servem como fonte de pesquisa desta longa narrativa repleta de personagens e estórias; todavia não são capazes por si só de provocar sentimento ou de servirem de base para revoluções, em que se vê a necessidade de algo mais pulsante como forma de despertar novamente o afeto pelo carnaval, pelo samba, pelas escolas e, conseqüentemente, por mudanças no sentido de apontar o foco da narrativa para quem verdadeiramente é o dono deste “folhetim”, quem formatou, deu cara e identidade a toda essa história.

Precisamos de um pouco mais de ânimo para sermos nós a testemunha secular e, sobretudo, atuante, desta narrativa; para que se possa ao menos fazer valer os ideais de resistência que foram plantados lá nos primórdios... E que não fiquemos apenas acompanhando as distorções nos princípios que balizam o carnaval como espectadores somente, para que mais tarde a competência para criticar não seja algo fora de nossa alçada. Porque não podemos delinear os caminhos desse enredo que, acima de tudo, é nosso? Na TV, quando não gostamos do “Jornal Nacional” podemos rapidamente mudar para o “Jornal da Record” ou até mesmo desligar a TV e ir para a Internet, pois neste e em tantos outros casos somos detentores da opção de escolha. Bom mesmo seria se esta regra fosse válida para nossa relação com as escolas de samba, bem como para abrandar a nossa frustração em determinados momentos. Entretanto compreendo que no carnaval é bem mais complicada essa relação, pois quando não gostamos de ter Chile, Noruega, Zimbábue como enredo, abate-se sobre nós uma profunda crise existencial por estarmos entrando em conflito com a paixão por uma escola, ou seja, o conflito é com o coração, nada mais que o coração. E aqui estamos nós, caras pálidas, assistindo a tudo de forma pacífica, reduzindo a nossa relação com o carnaval ao mesmo patamar da TV, como se o carnaval fosse um corpo estranho, ou um objeto voador não identificado.        
          
Com efeito, é bem verdade que nesta fase “Vegetal de Sangue” em que nos encontramos a História ainda seja onisciente e onipresente, mas atue apenas como registradora dos acontecimentos – ou da falta deles - para mais adiante ser apenas uma simples reprodutora. E um belo dia no futuro, quem sabe, ela resolva nos contar algo, como se fosse um Cordel Nordestino, sobre este “período interrogativo e vegetativo” que vivenciamos; para expirar o seu pecado. Pecado de ver e nada fazer. Pecado de ter se petrificado e se anulado. Pecado por atuar de forma passiva e não militante diante das intempéries que se sucederem paulatinamente; assistindo calada aos gestos, vícios, e crimes se repetirem em cada geração que lhe “habitou”, nos mostrando o quanto o tempo pode ser comparado a um velho esquecido, pois permite que certas coisas aconteçam sem sequer esboçar qualquer reação. E ficamos como se fossemos feitos do mesmo material, da mesma matéria-prima que deu forma às arquibancadas da Sapucaí.   

Contaram os ventos vindos da Zona Oeste que a Mocidade traria para a avenida um enredo sobre o Chile (e estava armada a grande confusão!) um país de pouca identificação com o Brasil, assim como tantos outros temas que já passaram pela avenida ultimamente. E qual o nosso papel diante disso? Eis aqui o primeiro conflito psicológico em nossas cabeças: “Minha escola já me emocionou com Martim Cecerê, e agora vem com Noruega” ou então “Já tive orgulho de minha escola com Tupinicópolis e agora terei que me rasgar de amores pela terra da Michelle Bachelet”. Dando continuidade, eis que surge o segundo conflito psicológico em nossas cabeças: “Eu devo apoiar minha escola mesmo sabendo dos caminhos tortos que ela toma, ou devo ser mais atuante, no sentido de querer – e principalmente de exigir - sempre o melhor para ela acima de qualquer coisa?” E, pra finalizar, o terceiro e mais avassalador conflito psicológico: “É melhor ganhar força financeira para competir com os grandes dinossauros, ou bom mesmo é ser feliz mesmo correndo o risco de amargar um péssimo resultado?” “Qual o meu conceito de felicidade?”. Fantasiado em outro cenário e outra contextualização – porém não menos dramático - aquele conflito de Hamlet aparece para nos aterrorizar: vegetable ou not vegetable...

Seremos pra sempre “Vegetais de Sangue” petrificados nas arquibancadas da Sapucaí, ou o nosso papel enquanto parte mais que integrante e, portanto, matriz energética de toda essa festa deve sempre falar mais alto? Sendo assim, voltemos ao nosso eixo sobre a testemunha secular da história. Ficará registrado na história do carnaval tudo o que de fato acontecer, tantos os “Martins Cecerê” quantos os “Bacalhaus”, tantos os “Tupinicópolis” quando os “Chiles”; todavia, a verdadeira história ficará no inconsciente do povo, e este é, na verdade, o grande autor e contador de estórias e causos... É ele o relator de momentos que de alguma forma despertaram sensações e que serão repassados para as gerações seguintes. Nossa relação de afeto por Jamelão, por exemplo, será repassada para frente a ponto de as gerações futuras preservarem o mesmo carinho que hoje temos pelo mestre. E o que é isso? A mais que verdadeira testemunha secular da história.          

O lugar da história é o coração humano. É nele que estão os grandes momentos, como a criança lá do Nordeste que escuta desde pequeno as estórias, os causos, as lendas... Os singelos versos de Luís Câmara Cascudo, que tomei emprestado como título atua com uma precisão cirúrgica ao denotar que a grande testemunha secular não é a História pura e simplesmente, mas a Memória Afetiva do povo que edificou seus alicerces, assim como a dos que receberam esta tal Memória Afetiva como herança. Isso mesmo, herança. E esta relação quase que hereditária está presente, nas mais diversas culturas pelo mundo afora e é uma das bases do folclore. O interessante em tudo isso é observar que as pessoas mais velhas certamente falam com saudade de carnavais passados, de tempos passados, e isso é mais que natural, uma vez que foram peças atuantes da engrenagem que impulsionou o período a que se remete de forma nostálgica.

Todavia isso não é exclusividade das pessoas que viverem em tais épocas, já que os mais jovens também acabam desenvolvendo o mesmo sentimento afetivo por períodos em que nem eram nascidos. Bossa Nova, uma senhora de 50 anos, continua encantando as gerações subseqüentes à sua gênese continuam despertando o mesmo interesse e ganhando uma característica atemporal. Como explicar tal fato? Como um jovem garoto consegue desenvolver o mesmo sentimento afetivo por períodos do carnaval anteriores a sua existência? Há algo de sobrenatural nisso? Claro que não, e a resposta para tamanha confusão está, mas uma vez, nos versos do folclorista Luís Câmara Cascudo, pois a forma emotiva com que as histórias (hoje há uma carência de histórias, enredos que tenham a força necessária para serem lembrados) são contadas para as gerações futuras é responsável por este tipo de situação. Certamente quem nunca presenciou desfiles memoráveis da história do carnaval nutre um sentimento de ternura similar ao dos que testemunharam e atuaram para que a história se perpetuasse no imaginário popular. Ao tomarmos conhecimento de tantos momentos, de tantas histórias envolventes, nos colocamos no lugar, como se pudéssemos ser transportados para uma realidade distinta da atual.

A peculiar visão da História, que coloquei desde o início personificado na figura de toda essa gente que verdadeiramente faz o samba, assistiu tudo o que aconteceu dentro de seus limites, desde a sua “criação” até os dias atuais, em que, apesar de possuir tanta vida dentro de si, passa por momentos de extrema solidão, já que outrora era testemunha de momentos de emoção, hoje testemunha do mais uníssono silêncio.   

É preciso pensar no que estamos produzindo de interessante e que mereça verdadeiramente ser repassado para as gerações futuras, partindo do pressuposto de que as gerações futuras deveriam herdar histórias belas, de bravura e coragem, de suor e lágrimas; assim como nós herdamos de nossos antepassados, no que diz respeito aos belos capítulos que o carnaval produziu e que se tornaram parte mais que essencial da cultura popular brasileira. Abro aqui um parêntese e peço licença aos senhores para uma pequena crise existencial que neste exato instante abateu sobre esta pessoa que vos fala: Oh, céus... Mas seria isso a praga na Nostalgia? Até que ponto cultivar o pensamento de que “o que é bom ficou no passado” nos impede de ver a atual realidade com olhos mais complacentes? Estaria eu, trazendo este pensamento, após passar quatro meses na geladeira, caindo nesta mesma cilada? Tirem suas próprias conclusões...

 

 

 

Sobre Nós | Webmaster | Política de Privacidade | Copyright ©2005-2006 Tradição do Samba - Todos os Direitos Reservados