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Opinião

 

 

Hora de Observar e Refletir

 

Por Ricardo Almeida

 

 

 

 

Salve, Salve!!

Muita gente pode estar pensando que estou passivo a todos estes lamentáveis acontecimentos dos últimos dias, envolvendo o mundo do samba diretamente. Mas, neste momento, nada mais temos a fazer senão observar o desfecho.

Sem querer me ater à questão policial, que não tenho competência e muito menos nada a ver com isso, prefiro me focar então na questão do carnaval propriamente dito.

Não é de hoje que o jogo do bicho está ligado diretamente ao carnaval carioca, e isso todos somos sabedores, não sendo novidade alguma, portanto. Para que não ficasse totalmente explicito essa “parceria”, surgiu a figura do “patrono” das escolas de samba. A ação dos patronos ficou mais evidente a partir da década de 70, muito pela mão do carnavalesco Joãosinho Trinta, que incutiu na cabeça de todos que o carnaval tinha que ter luxo, porque era o que o povo gostava de ver, e a televisão, que vislumbrou uma ótima fonte de renda. E, para se ter luxo na avenida, dinheiro era fundamental, e era o que os patronos tinham. Começou no Salgueiro, em 1974 e 1975, e depois na desconhecida Beija-Flor com o tricampeonato de 76/77/78. Digo desconhecida porque, até aquele ano, que me desculpem os nilopolitanos, a Beija-Flor era uma escola que poderíamos comparar nos dias de hoje, sem medo de errar, a Renascer de Jacarepaguá; só para exemplificar; ou seja, fazia número. De repente, esta escola surge do nada e se torna escola grande, para desespero das escolas tradicionais, que viram naquele momento surgir uma pedra no caminho até então impensável. No rastro da Beija-Flor e seu patrono, vieram escolas medianas como Mocidade Independente e Imperatriz Leopoldinense. Era a força do dinheiro sobrepondo a criatividade e espontaneidade do carnaval.

Mas, como no futebol, nem sempre a força do dinheiro é soberana. Sem patronos, com muita criatividade e samba no pé, outras escolas também tiveram seus dias de grande. Quem não se lembra da União da Ilha do final dos anos 70 e início dos 80? E a Caprichosos de Pilares, Unidos da Tijuca, Estácio de Sá e Vila Isabel? Não posso deixar de citar aqui o ano de 1980, quando a Vila não foi campeã porque o jurado na maior cara de pau declarou que deu 9 para o samba-enredo da Vila porque dormiu no desfile. A partir deste episódio, começou então a surgir à dúvida com relação à idoneidade dos jurados. Era a outra face do poder do dinheiro, sem dúvida.

Muitos títulos neste período foram duramente criticados, mostrando a indignação do mundo do samba com resultados duvidosos. Obviamente, não estou falando de todos, e muito menos esquecendo de quem realmente faz o desfile, que são os integrantes. Sem eles, nada disso seria possível. Tanto isso é verdade, que escolas sem dinheiro levantaram títulos e a ira dos “magnatas” do carnaval. Cito dois exemplos: Vila Isabel, em 1988, e Estácio de Sá, em 1992. Em 1988 a Vila tinha acabado de sair de uma gestão sem títulos do “Capitão” Guimarães, passava por sérios problemas financeiros, havia perdido sua quadra, e ninguém levava a sério aquele desfile, somente uma pessoa da mídia, justiça seja feita, que dizia: “Prestem atenção na Vila Isabel, porque ela vai surpreender”. Quem era? A grande Lecy Brandão. Em 1992, a Estácio de Sá também não era tida como favorita. Em ambos os casos, as escolas deram um passeio na avenida. Aquele mesmo Joãosinho Trinta, até então figura inabalável do carnaval mostrou suas garras e declarou que não entendia o resultado e, no ano 1989, trouxe uma Beija-Flor impensável, com o enredo “Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia”. Era o luxo do lixo, dizia ele. Só não foi campeão por puro jogo de interesses dos patronos. No ano anterior (88), a Imperatriz Leopoldinense fez um dos piores desfiles de sua história e ficou na última colocação. O patrono da escola era Luizinho Drummond, que também era diretor da recém criada Liesa. Então, em vez de rebaixada, a escola permaneceu no grupo especial e no ano de 1989 se sagrou campeã. Coincidência? Não, meus amigos, puro jogo de interesse.

Todo este jogo de interesse e a figura do patrono foram ficando em segundo plano. Os motivos são óbvios. Na década de 1990, os principais patronos tiveram que se explicar com a justiça, e ficaram aparentemente afastados do carnaval. Com isso, surgem então os carnavais patrocinados. As escolas se mexeram e começaram a desenvolver enredos onde pudessem ter patrocínios de empresas. Muitos deles, na verdade, sem razão de ser, mas era e é a única forma de se obter verba para fazer um carnaval para disputar títulos. Além das empresas, a Prefeitura também comprou a briga e aumentou sua participação na ajuda das escolas, engrandecendo o espetáculo. Com “pouco dinheiro” girando, a criatividade volta a prevalecer. Quem mais se destacou, sem dúvida, foi à carnavalesca Rosa Magalhães, que conquistou nada menos do que cinco títulos pela Imperatriz, e polemizou com seus desfiles tecnicamente corretos. Além dela, Max Lopes e Renato Lage foram os nomes que imperaram por quase uma década.

Neste novo cenário, fico me perguntando a real importância destas figuras. Certamente, eles ainda estão no poder, mas fatos novos estão acontecendo e novas pessoas também. Só não podemos ter a ilusão de que eles sumirão do mundo do samba. Acho muito difícil. Mas que cada vez mais eles ficarão em segundo plano, não tenho dúvidas.

Só para fechar, quero aqui deixar minha declaração com relação à dúvida levantada quanto ao título da Beija-Flor deste ano. Acho, e tenho certeza que a maioria também, que é inquestionável este campeonato, sob o ponto de vista técnico. A escola sobrou na avenida e levantar esta dúvida sem as devidas provas, só vem a comprometer este espetáculo. Estamos observando.

Até a próxima!!

 

Ricardo Almeida

 

 

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