LIESV - Liga das Escolas de Samba Virtuais - Carnaval 2008
Gabriel Carin
Em 2007, a Império do Progresso fez um enredo em homenagem à Candeia. O enredo, exaltando a negritude, a maior bandeira do compositor, tinha como clímax a citação à escola criada por Candeia como uma forma de resgate das raízes negras do carnaval. “Quilombo” foi desenvolvido por Vítor Saraiva e obteve o quarto lugar no desfile do Grupo Especial.
Chegou a hora de conhecer um pouco mais desta personalidade, uma das mais importantes da história das escolas de samba, em texto de Gabriel Carin.
CANDEIA

A chama começa a brilhar
Antônio Candeia Filho nasceu no Rio de Janeiro, em 17 de agosto de 1935. Desde pequeno, a música sempre fez parte do cotidiano de Candeia. Afinal, ainda menino, ouvia o pai cantarolando dia e noite. O pai era tipógrafo, flautista, boêmio e já o grande idealizador da criação das comissões de frente de escolas de samba Candeia, acompanhando sempre as aventuras do pai no Rio de Janeiro, conviveu desde os seis anos de idade com o som das samba e dos chorinhos, já que seu pai promovia rodas de sambas com amigos, regadas à cachaça e feijoada. Porém mesmo tendo uma ampla relação com o carnaval, o pai não deixou o filho se quer entrar na quadra da Portela.
Com esse passado musical, ninguém estranhou quando, aos treze anos de idade, Candeia seguiu o mesmo caminho paterno e também começou a tocar violão, cantar e compor. Ainda pequeno, tornou-se autodidata, aprendeu a tocar violão e cavaquinho. Em pouco tempo, participava das reuniões na casa de dona Ester, notório ponto de encontro dos sambistas do subúrbio de Oswaldo Cruz, onde faria amizade com Zé da Zilda, Luperce Miranda e Claudionor Cruz. Além da música, o jongo, a capoeira e os terreiros de candomblé também eram de sua intensa devoção.

A chegada da Águia
Em 1950, a mãe dona Maria, figura tradicional do bairro de Oswaldo Cruz, juntou dinheiro suficiente para o filho comprar uma fantasia de carnaval. O pai havia finalmente autorizado o menino, já com 14 anos, a desfilar pela Portela, num tempo em que a quadra da agremiação ainda se localizava no antigo bar do Nozinho.
O desfile da Portela tinha como tema o enredo Riquezas do Brasil. Assim como no ano anterior, houve dois desfiles oficiais: um com a Portela e a Mangueira e outro com as demais escolas de samba, incluindo o Império Serrano. A escola de Oswaldo Cruz lembrou, de forma magistral, várias riquezas brasileiras cobiçadas por nações estrangeiras. Houve alegorias citando as pedras preciosas dos séculos XVII e XVIII, o café do século XIX e o petróleo, que estava em crise naquela mesma época (anos 50). Candeia desfilou fantasiado de mecânico. A Portela foi vice.
Em 1952, Candeia foi convidado por Altair Prego para fazer o samba-enredo com o qual a Portela viria a desfilar em 1953. O enredo se chamava Seis Datas Magnas, relembrando alguns célebres momentos de nossa história. Logo de cara, o menino de apenas 17 anos levou 10 de todos os jurados na quadra da escola, superando até o favoritíssimo Manacéa. Seu samba, lembrado até hoje com emoção pelos portelenses, gerou um dos desfiles mais extraordinários da história. A escola preparou um desfile muito bonito, emocionante e empolgante, que animou o público em todos os momentos. A Portela foi a grande campeã e o primeiro samba de Candeia ficou na antologia.
Em 1955, Candeia, dessa vez ao lado de Walmir 59, volta a ganhar com o samba-enredo Festa Junina em Fevereiro. O desfile foi de uma animação infinita, já que o tema era de forte comunicação popular. As alegorias, todas multicoloridas, representavam balões, fogueiras, lanternas, bandeirinhas e fogos. Além disso, as alas, cuja empolgação se assemelhava muito com a de uma quadrilha de verdade, incorporaram genialmente o enredo. A Portela ficou dessa vez com a terceira colocação.
Em 1956, Candeia novamente vence o samba-enredo da Portela, juntamente com seu parceiro Walmir 59. O enredo dessa vez se chamava Gigante Pela Própria Natureza. A Portela fez um belo desfile e foi vice-campeã. Em 1957, Candeia ganha outra vez o samba, que se chamava “Legados de Dom João VI” (seria regravado décadas mais tarde por Martinho da Vila). Dessa vez, a diretoria o convidou para também integrar a comissão de carnavalescos. Candeia, junto com Joacir e Djalma Vogue, foram os grandes responsáveis pela idealização daquele carnaval. A Portela fez um belíssimo desfile, lembrando toda trajetória do monarca no Brasil. Portela mais uma vez campeã!
No mesmo ano de 1957, teve sua primeira música gravada em um 78 rpm por Luís Bandeira a sua, Samba sincopado. O cantor ouvira a samba por acaso, nos estúdios da gravadora Sinter.
Em 1958, Candeia não ganhou samba-enredo na Portela. Só venceu em 1959, com o enredo Brasil, Panteon de Glórias, criado pelo amigo Djalma Vogue. O portelense contou também com Casquinha, Bubu, Walmir 59 e Picolino para compor o seu samba. Outro momento inesquecível, que consagrou outro título a Portela.
Depois de seis anos sem vencer na Portela, em 1965, Candeia e Walmir 59 vêem a escola de Oswaldo Cruz desfilar novamente com um samba de sua autoria. Dessa vez, ao contrário dos anos anteriores, os compositores fizeram um gigantesco samba-lençol, típico dos anos 60, que abordava todo o enredo numa letra gigantesca. Foi um desfile bonito, extremamente animado, porém impossível de vencer o Salgueiro de Fernando Pamplona. Rendeu a Portela um 3º lugar. Foi o último samba de Candeia para a Portela.
Foram ao todo seis vitórias na difícil disputa de sambas da Portela, que sempre teve a melhor ala de compositores entre todas as escolas de samba cariocas. Dos seis sambas de Candeia que a Portela defendeu na avenida, a escola sagrou-se campeã em três oportunidades (1953, 1957 e 1959). A partir de então, estavam abertas as portas para que seu sucesso fosse muito mais além dos desfiles das escolas de samba.

Sentado em trono de rei
Em 1961, buscando um emprego certo, Candeia consegue o terceiro lugar em um concurso público para a polícia. O policial Candeia tinha fama de truculento e durão. Segundo Bretas, outro compositor que também era integrante da força policial, Candeia era voluntarioso, valente, sempre disposto a cumprir seu trabalho. Durante sua passagem pela Polícia, Candeia viu, em nome do dever, sua relação com alguns antigos amigos serem modificadas, pois algumas de suas atitudes eram tidas como estranhas. Exercendo sua função, Candeia foi o responsável pela prisão do famoso Neném Ruço, do Engenho da Rainha. Muitos sambistas conhecidos, como Dominguinhos do Estácio e até o amigo Paulinho da Viola, também foram abordados pelo policial Candeia.
No dia 13 de dezembro de 1965, esquina da Rua Marquês de Sapucaí com Presidente Vargas, num episódio até hoje mal-explicado, Candeia é baleado com cinco tiros após uma confusão com três ocupantes de um caminhão, em que um deles alojou sua espinha. Foi levado semimorto para o hospital Souza Aguiar. Diz-se que o acidente teve origem quando, no dia anterior, ao esbofetear uma prostituta, ela rogou-lhe uma praga. Após 72 horas, desenganado pelos médicos, Candeia consegue sobreviver. Várias cirurgias trouxeram algumas melhoras, mas Candeia jamais voltaria a ter sensibilidade da cintura para baixo. Candeia, assim, estava condenado a viver pelo resto da vida "sentado em trono de rei". A cadeira de rodas torna-se sua amiga inseparável. No início foi difícil, mas Candeia conseguiu recuperar a alegria pela vida.
Ao mesmo tempo, sua música cresce em qualidade, suas canções despontam definitivamente para a glória, retratando sua própria situação apesar da dor. Era a vida que continuava e fazia a chama de Candeia brilhar mais forte.

O mensageiro do samba
Ainda em meados da década de 60, junto com os amigos David do Pandeiro, Casquinha, Picolino, Casemiro, Arlindo e Jorge do Violão, Candeia criou o grupo Mensageiros do Samba. E fora exatamente nessa época em que desencadeou um processo de revitalização do samba de raiz, promovido especialmente pelo Centro de Cultura Popular da União Nacional dos Estudantes. Um dos lugares que mais priorizou essa revitalização, importante ponto de encontro de sambistas, foi o restaurante Zicartola, criado pelo mangueirense Cartola e sua esposa, Zica. Entre as várias atrações apresentadas pela casa estava o conjunto “Mensageiros do Samba”, o qual começou a se apresentar no local a partir de 1964, revelando o talento de Candeia para o mundo.
Após do acidente em que ficou paraplégico, Candeia ficou certo tempo afastado do mundo do samba. Sua vida e sua obra se transformaram completamente. Em seus sambas, podemos assistir seu doloroso e sereno diálogo com a deficiência e com a morte pressentida: Pintura sem Arte, Peso dos Anos, Anjo Moreno e Eterna Paz são só alguns exemplos. Recolheu-se em sua casa e não recebia praticamente ninguém. Foi um custo para os amigos como Martinho da Vila trazê-lo de volta. Isso durou até que em 1966, o Paulinho da Viola, que já havia até sido abordado pelo próprio Candeia como policial, gravou o samba Minhas Madrugadas, da autoria do portelense.
Em 1966, o conjunto Mensageiros do Samba gravou seu primeiro disco. O título do vinil era o mesmo nome do grupo. Fora lançado pela gravadora Polydor e tinha excelentes arranjos, o que dava um gingado especial ao LP.
Em 1970, gravou seu primeiro disco individual, denominado “Autêntico, Samba, Original, Melodia, Portela, Brasil, Poesia”, realizando um sonho bem antigo. O portelense interpretou sambas de sua autoria como Samba da antiga, Viver, Chorei, chorei, O pagode, Prece ao sol, A volta, Paixão segundo eu, Dia de graça, Outro recado (c/ Casquinha), Sorriso antigo (c/ Aldecy), Coisas banais (c/ Paulinho da Viola) e Ilusão perdida (c/ Casquinha).
No ano seguinte, pela mesma gravadora, lançou o LP “Raiz”. No disco, incluiu de sua autoria Filosofia do samba, Vem é lua, A hora e a vez do samba, Quarto escuro, Regresso, Saudação a Toco Preto, De qualquer maneira, Imaginação (c/ Aldecy), Minhas madrugadas (c/ Paulinho da Viola), Saudade (c/ Arthur Poerner), Vai pro lado de lá (c/ Euclenes) e Silêncio tamborim, de autoria de Anézio e Wilson Bombeiro.

A chama brilha mais forte!
No mesmo ano que Candeia lançou seu primeiro LP individual, No mesmo ano, o conjunto Nosso Samba interpretou Dia de Graça, de autoria do compositor. Clementina de Jesus, que também lançava seu primeiro disco individual, chamado “Clementina, Cadê Você?”, incluiu no repertório três composições do compositor: Vai de Saudade, Os Partideiros e A Paz no Coração.
No ano de 1974, Clara Nunes gravou Sindorerê. Neste mesmo ano, o crítico Ricardo Cravo Albin incluiu seu samba Dia de graça no oitavo e último LP da série "MPB - 100 Anos - Ao Vivo", contando a história da MPB, gravado ao vivo na Rádio MEC. O samba foi interpretado por Elza Soares, acompanhada de Abel Ferreira e seu conjunto. Ainda em 1974, Elizete Cardoso, no LP “Feito em casa”, incluiu de sua autoria Peso dos anos, parceria com Walter Rosa.
Em 1975, pela gravadora Tapecar, lançou o LP “Samba de roda”, no qual adaptou e interpretou diversos motivos folclóricos da Bahia, entre os quais Capoeira: Ai, Haydê, Paranauê, Maculelê: Sou eu, sou eu, Não mate homem, Olha hora Maria, Candomblé: Deus que lhe dê e Salve! Salve!, além da faixa-título Samba de roda: Porque não veio, também um desses motivos baianos. No disco, também incluiu composições de sua autoria, entre elas Brinde ao cansaço, Alegria perdida (c/ Wilson Moreira), Sinhá dona da casa (c/ Netinho), Acalentava, Samba na tendinha, Não tem veneno (c/ Wilson Moreira), Eskindôlelê e ainda Já clareou (Dewett Cardoso), Conselhos de vadio (Alvarenga) e Camafeu (Martinho da Vila).
Neste mesmo ano de 1975, participou do disco “Partido em 5 - volume 1”, ao lado de Joãozinho da Pecadora, Anézio, Wilson Moreira, Velha e Casquinha. Já em 1976, ao lado de Hélio Nascimento, Anézio, Velha, Casquinha e Wilson Moreira, gravou o LP “Partido em 5 volume 2”, no qual foram incluídas de sua autoria Batuque feiticeiro, História de pescador e Luz da inspiração.
Participou também do LP “Partido de primeira”, no qual interpretou Samba na tendinha, Já clareou e Olha a hora, Maria. Neste mesmo ano, Clara Nunes gravou um sucesso de sua autoria, O mar serenou, e Alcione, no LP “A voz do samba”, incluiu duas composições de sua autoria, História de pescador e Batuquei no feiticeiro.
Em 1977, Candeia integrou o clássico LP “Os Quatro grandes do samba”, em que canta ao lado de Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito e Elton Medeiros. Foram incluídos seus Expressão do teu olhar (interpretada somente pelo próprio Candeia), Não Vem (cantado por todo o grupo) e Sou mais o samba (num dueto com Dona Ivone Lara). O sucesso gigantesco do vinil gerou um show homônimo no Teatro Clara Nunes.
Neste mesmo ano de 1977, lançou o disco “Luz da inspiração” interpretando de sua autoria Olha o samba sinhá, Vem menina moça, Nova escola, Luz da inspiração, Cabocla Jurema e Falso poder, além de outras composições em parceria, tais como Me alucina (c/ Wilson Moreira), Era quase madrugada (c/ Casquinha), Riquezas do Brasil (c/ Waldir 59) e ainda Pelo nosso amor (Cartola), Maria Madalena da Portela (Aniceto do Império) e Já curei minha dor, de Padeirinho da Mangueira.
Em 1978, lançou o que foi considerado seu melhor disco, “Axé! Gente amiga do samba”. No LP, com arranjos de João de Aquino, incluiu Vivo isolado do mundo, composição de autoria de Alcides Malandro Histórico, geralmente creditada a autoria a Candeia, dado ao enorme sucesso da música naquela época. No disco também interpretou O invocado (Casquinha), Beberrão (Aniceto do Império e Molequinho), Ouço uma voz (Nelson Amorim) e Ouro desça do seu trono (Paulo da Portela). No LP, incluiu de sua autoria as faixas Dia de graça, Gamação, Pintura sem arte, Mil reis (c/ Noca da Portela), Amor não é brinquedo (c/ Martinho da Vila), Zé Tambozeiro (c/ Vandinho), Peixeiro granfino (c/ Bretas) e Vem amenizar, (c/ Waldir 59).

A crise da Portela
Em 1971, Candeia foi convidado para confeccionar o desfile de 1972 da Portela, junto com o carnavalesco Hiram Araújo. O enredo se chamava Terra da vida, hoje muito conhecido como Ilu Ayê, graças ao inesquecível samba de Cabana e Norival Reis. Tratava-se de tema afro, exaltando a cultura e as tradições negras. Foi um enredo proposto pelo próprio Candeia, que sempre supervalorizou a cultura africana. Outra pessoa que ajudou nos preparativos do carnaval foi o cartunista Lan, portelense há muitos anos. Porém Hiram Araújo, talvez por egocentrismo ou arrogância, fez com que todos acreditassem que o carnaval seria somente dele, como todas as idéias saíssem apenas de sua mente. Colocou Candeia apenas um colaborador e não como carnavalesco, do mesmo modo que o próprio Hiram Araújo era. Isso começou a irritar não só Candeia, como também outros integrantes da Portela. Era o início de uma crise.
Mas nada tiraria o brilho de Ilu Ayê e a Portela havia mostrado a todos antes do carnaval que havia vindo para brigar seriamente pelo título. E como já era de se esperar, o desfile foi extremamente positivo. O candomblé e todo misticismo africano entravam na avenida com uma garra invejosa, tendo uma comunicação imensa com o público, já que o samba era bastante popular. Hiram e Candeia investiram muito em fantasias rústicas, como a palha e a ráfia, dois materiais que tinham uma relação grande com o enredo. A Portela uniu uma seqüência de materiais primitivos em fantasias e alegorias com um acabamento linear, adaptado ao estilo de desfile, que acabou proporcionando muita aceitação do público e dos críticos. Foi mais um carnaval fantástico da escola de Oswaldo Cruz, que acabou ficando num justo 3º lugar, perdendo para os quase imbatíveis desfiles da Mangueira e do Império Serrano, que foi o campeão.
Para 1974, Hiram Araújo bolou uma homenagem a Pixinguinha, grande músico brasileiro que havia falecido pouco tempo antes. Porém novamente a sensação de crise mostra as suas garras. O presidente Carlinhos Maracanã chamou a dupla Jair Amorim e Evaldo Gouveia para fazer o samba da Portela e não era de se esperar que os dois ganhassem. Isso foi motivo de revolta! Acontece que, além de estarem quebrando uma tradição de que era proibida a vinda de compositores de fora da escola, ambos eram consagrados nomes do bolero, mas nunca sequer haviam feito um samba-enredo na vida. Isso deixou a Portela completamente dividida. Quase ninguém mais queria obedecer a uma diretoria que esnobava os membros mais tradicionais e só trazia conturbações ao mundo do samba.
Ainda que a crise fosse perturbadora, o brilho de desfile não poderia ser abalado. A Portela havia preparado um desfile imenso, de padrões quase atuais, pois a escola tinha cerca de 4.000 componentes. Além disso, Hiram preparou um desfile moderno e exuberante, afastado completamente dos primeiros desfiles de escola de samba, nos anos 30. Mesmo assim, esse foi um dos melhores desfiles dos anos 70 e uma das passagens mais bonitas da história da Portela. O próprio Candeia, que tanto criticou os preparativos da escola, ajudou a puxar o samba na avenida junto com Silvinho do Pandeiro e Clara Nunes. A Portela foi vice, perdendo somente para o Salgueiro.
Em 1975, a Portela veio com uma garra fantástica, empolgada com a boa colocação do ano anterior. O enredo era baseado a história de Macunaíma, de Mário de Andrade. A escola já tinha confiança no estilo de seu carnavalesco, com seus departamentos culturais. A Portela fez um desfile multicolorido, divertido, tendo uma comunicação imensa com o público, aliado ao animadíssimo samba. Novamente, Candeia puxa o samba da escola com Silvinho do Pandeiro, Clara Nunes e também com o próprio compositor do samba, David Corrêa. Para melhorar ainda mais, a bateria não teve problemas, ao contrário dos anos anteriores. Estranhamente, a escola de Oswaldo Cruz ficou apenas no 5º lugar, mesmo apontado por muitos como campeã, pois aquela foi com certeza uma das passagens mais inesquecíveis da história da Portela.
A Quilombo – refúgio do samba de raiz
Mesmo com a seqüência de bons desfiles que a Portela andava fazendo, crise mostrava-se ainda forte e o estilo de carnavais do Hiram continuava sendo vítima de críticas. A Portela estava sendo modernizada, assemelhando-se cada vez mais com os carnavais luxuosos de Joãosinho Trinta. Segundo os próprios integrantes da escola, ela havia sido apenas um atrativo para inglês ver. Um desfile agigantado e frio não tem coexistência com os padrões tradicionalíssimos de uma escola de samba como a Portela. Hiram achava que o melhor jeito de fazer um grande desfile era trazendo inúmeras inovações para a escola e assim, tornar-la uma agremiação imbatível, pois teria força suficiente para enfrentar qualquer tipo de complicação. Ele ainda teve a sorte de contar com o apoio do presidente Carlinhos Maracanã, que defendia sua tese. Só que quase ninguém tinha a mesma visão dos dois. A Portela ficava cada vez mais dividida e só para apimentar ainda mais a situação, o eterno Natal da Portela vem a falecer, o que viria a desequilibrar por completo o sentimento de louvação dos membros mais tradicionais da escola. Esses motivos levaram Candeia e um outro grande grupo de sambistas a fundar a Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo.
Fundada em Rocha Miranda, tudo na Quilombo era feito somente para lembrar as tradições do carnaval. Era uma escola em que tudo fosse feito pelo povo. As costureiras do lugar fazendo as fantasias. Não ia ter esse negócio de figurinista de fora não. As alegorias também eram escolhidas pelo próprio pessoal da comunidade. O samba escolhido seria feito apenas por membros internos da escola, sem compositores de fora (para Candeia, os “bicões”). As cores da escola eram lilás, branco e ouro, lembrando as cores da Portela e do Salgueiro. Tudo foi feito para reviver os tempos áureos da Portela, sem paternalismos de bicheiros, políticos e carnavalescos.
Mesmo com a nova escola, Candeia fazia questão de afirmar: ainda era portelense de coração! Ainda que a Portela enfrentasse uma crise, Candeia praticamente nasceu dentro da escola. A Quilombo seria mais do que uma escola de Samba. Seria uma escola para todos os sambistas, um modelo e referência para outras escolas.
Outro detalhe fundamental para a Quilombo era o fato da escola não participar dos desfiles oficiais de escolas de samba. Era uma escola que não se afiliou a nenhuma entidade para desfilar. Era o sonho dos saudosistas!

A chama se apagou?
Em 1978, em parceria com Isnard, lançou o livro “Escola de Samba - A Árvore que Esqueceu a Raiz”, pela Editora Lidador/Seec, que trata das transformações que as escolas de samba sofreram ao longo dos anos, destacando a influência cada vez maior que a classe média tinha nas escolas. Se antes foi difícil encontrar comprador, hoje esse livro é uma das principais referências sobre a origem e a história das escolas de samba e seus principais quesitos. De acordo com o crítico Mauro Ferreira: “Tal qual Zumbi dos Palmares, Candeia era o Zumbi dos terreiros cariocas, desbravando caminhos e lutou para manter erguida a bandeira dos partidos mais altos e do orgulho negro”.
Pouco depois de o livro ser lançado, no dia 16 de novembro, Candeia infelizmente vem a falecer no hospital Cardoso Fontes, em Jacarepaguá, vítima de uma parada cardíaca, conseqüência de infecção generalizada do organismo. Morreu cedo, com apenas 43 anos de idade. Candeia foi sem a menor dúvida um dos nomes mais importantes da história do samba. Suas músicas eram compostas de modo espetacular, resultando sempre em obras-primas. Toda sua luta a favor da cultura afro-brasileira foi de uma notável singularidade na preservação da identidade cultural da raça negra.
Depois da morte de Candeia, a Quilombo passou a ter mais dificuldades para manter sua existência. A escola não conseguiu se manter atuante em desfiles, mas continuou firme em seus trabalhos pelas raízes negras. De lá para cá, a Quilombo mudou várias vezes de quadra, até permanecer onde está hoje, em Acari.

Em 1979, ano após sua morte, inúmeros artistas fizeram homenagens ao cantor. No LP “Clementina e convidados”, Clementina de Jesus gravou Tantas você fez, em dueto com Cristina Buarque. A cantora Renata Lu no LP “Tô voltando” regravou Mil-réis. Alcione, neste mesmo ano, regravou Dia de graça no LP “Gostoso veneno”, gravada anteriormente por Elza Soares. Clara Nunes, no disco “Esperança”, incluiu duas composições suas em parcerias com Jaime: Ê, favela e Minha gente e, em 1980, interpretou no LP “Brasil mestiço”, duas outras composições de sua autoria: Dia a dia (c/ Jaime) e Regresso.
Em 1981, Alcione regravou Pintura sem arte. Em 1983, Beth Carvalho gravou Sabão(c/ Alvarenga) no disco “Suor no rosto”. No ano seguinte, Alcione interpretou A luz do vencedor, parceria com Luiz Carlos da Vila.
Candeia foi homenageado pela Unidos do Jacarezinho em 1986, com o enredo “Candeia, luz de inspiração”, com o qual a escola foi promovida para o grupo principal. No ano seguinte, Cristina Buarque gravou Morro do sossego (c/ Arthur José Poerner). Em 1988, aos dez anos de seu falecimento, a Funarte lhe prestou homenagem lançando um disco com 11 composições suas: O último bloco, Anjo moreno, Criança louca, Testamento de partideiro, Réu confesso (c/ Casquinha e Davi do Pandeiro), Indecisão (c/ Casquinha), Seis datas magnas (c/ Altair Prego), Peso dos anos (c/ Walter Rosa), Quero estar só (c/ Wilson Moreira), Portela é uma família reunida (c/ Monarco), Não vou te perdoar (c/ Wilson Moreira) e Morro do Sossego (c/ Arthur Poerner). Beth Carvalho também lhe prestou homenagem no LP “Alma brasileira”, interpretando de sua autoria Olha a hora, Maria e Gamação.
No ano de 1993, a gravadora Warner Music lançou pela coleção “Mestre da MPB” o CD “Candeia”, no qual foram compilados alguns de seus sucessos, entre os quais Dia de graça, Pintura sem arte e Amor não é brinquedo, parceria com Martinho da Vila. No disco também foram incluídas algumas de suas interpretações para composições de amigos: Maria Madalena da Portela (Aniceto do Império), Vivo isolado do mundo (Alcides Malandro Histórico), Ao povo em forma de arte (Wilson Moreira e Nei Lopes) e Beberrão, de Aniceto do Império e Molequinho.
Mas a grande redescoberta de Candeia veio só em 1995, quando Martinho da Vila, no CD “Tá delícia, tá gostoso”, o homenageou com o pot-pourri Em memória a Candeia, interpretando Dia de graça, Filosofia do samba, De qualquer maneira, Peixeiro grã-fino e Não tem vencedor. No ano seguinte, Zeca Pagodinho e a Velha-Guarda da Portela, no disco “Deixa clarear”, prestaram uma homenagem ao mestre, cantando o samba Vivo isolado do mundo de autoria de Alcides Malandro Histórico.
Em 1996, Paulinho da Viola, no disco "Bebadosamba", interpretou O ideal é competir (c/ Casquinha). No ano seguinte, Mart'nália, no disco "Minha cara", incluiu de sua autoria a composição A flor e o samba. Dois anos depois, o disco “Homenagem Eterna chama/Candeia”, trouxe as parcerias de Marquinhos de Oswaldo Cruz e Candeia na música Luz de verão, resgatada de uma fita cassete gravada por Cristina Buarque na casa de Candeia, na década de 1970. O CD “Eterna Chama/Candeia”, ainda destacou a participação especial de João de Aquino, que fez a direção musical e atuou como violonista, e de Cristina Buarque na faixa Vem pra Portela (c/ Coringa). Neste mesmo disco, outros intérpretes lhe prestaram homenagem: Beth Carvalho (Pintura de arte e O mar serenou), Zeca Pagodinho (Expressão do teu olhar), Martinho da Vila (Eterna paz), Dona Ivone Lara (Peixeiro grã-fino), Nelson Sargento (Peso dos anos), Monarco e a Velha-Guarda da Portela (Portela, uma família reunida) e Zé Luiz Mazziotti (Preciso me encontrar), canção composta por Candeia a pedido do falecido jornalista e escritor Juarez Barroso. Esta mesma música foi gravada com sucesso por Marisa Monte.
Em novembro de 1998, no Canecão, foi lançado o CD em homenagem a Candeia com a presença de amigos, parceiros e admiradores de sua obra. No ano 2000, a cantora Dorina regravou Me alucina no disco Samba.com. Neste mesmo ano o parceiro Casquinha lançou o primeiro disco, no qual incluiu a música Tantos recados, parceria de ambos, com participação especial de Aldir Blanc. Ainda neste ano, Luciana Mello, no disco "Assim que se faz", pela gravadora Trama, incluiu O mar serenou e seu parceiro Waldir 59 participou do disco “Ala de Compositores da Portela”, CD no qual foi incluída uma de declamação de Waldir 59 de parte da letra do samba-enredo Riquezas do Brasil de 1956.
No ano de 2001, o sambista Agrião incluiu A volta, de sua autoria, no disco “Samba vadio”. Em 2002, Zeca Pagodinho no disco “Deixa a vida me levar”, incluiu de sua autoria Riquezas do Brasil. Ainda em 2002, o grupo Fundo de Quintal gravou o disco “Cacique de Ramos e convidados”, no qual foram incluídas de sua autoria Samba da antiga, Olha o samba, Sinhá e A flor e o samba, todas com participação especial de Zeca Pagodinho. Ainda neste ano, Teresa Cristina incluiu Coisas banais, parceria com Paulinho da Viola, no disco “A música de Paulinho da Viola”.
Em 2003, Alcione, no disco “Alcione ao vivo 2’, incluiu de sua autoria Profecia. Neste mesmo ano, O mar serenou foi interpretada por Wilson Moreira no disco “Um ser de luz - saudação à Clara Nunes”. Em 2004, a cantora Tereza Gama lançou o CD “Aos mestres com carinho”, no qual interpretou de sua autoria Gamação. Em 2005, em São Paulo, vários amigos lhe prestaram homenagem em show no Sesc Pompéia, entre os quais estavam Paulinho da Viola e Wilson Moreira.
Curiosidades
- A Ala dos Impossíveis era considerada por Paulo da Portela como a que mais deu frutos à escola. Candeia era integrante da Ala dos Impossíveis. Certa vez, a ala teve de desfilar com uma assombrosa peruca de sisal. Candeia propôs que aos amigos para que inventassem uma coreografia para o desfile. Sendo assim, a peruca passaria despercebida no desfile. E foi exatamente o que aconteceu! A imprensa fez inúmeros elogios à novidade, e a experiência foi repetida com expectativa nos anos seguintes.
- Ao lado do amigo Isnard, Candeia participa do concurso de monografia sobre Paulo da Portela, promovido pela Funarte. O compositor não viveu para ver o resultado, mas seu trabalho, concluído graças ao empenho do companheiro, ficou em segundo lugar, atrás apenas do trabalho de Lígia Santos e Marília Barboza - “Paulo da Portela - traço de união entre duas culturas”.
- Devido ao sucesso do disco “Partido em 5”, clássico LP do qual as músicas de Candeia está presente, que o grande Wilson Moreira resolveu largar sua profissão de carcereiro e seguir carreira de sambista.
DISCOGRAFIA
Mensageiros do Samba
Data: 1966
Gravadora: Polydor
Primeiro disco de Candeia em um grupo inspirado no conjunto Voz do Morro de Zé Keti, Paulinho da Viola e Nelson Sargento. O grupo era formado por Candeia (detetive), Casquinha (bancário), Arlindo (Detetive), David (polícia militar), Jorge (funcionário público), Picolino (guindasteiro do cais) e Bubu (torneiro mecânico).
Autêntico, Samba, Original, Melodia, Portela, Brasil, Poesia
Data: 1970
Gravadora: Equipe
Primeiro disco individual de Candeia onde já mostrava ao que veio. A mais conhecida música deste disco, Dia de Graça foi regravada depois no Axé. Foi relançado em CD, pelo selo ABW, com o título modificado para Samba da Antiga. A qualidade da gravação é, no CD, apenas razoável. A ABW é conhecida por praticamente não remasterizar os CDs que relança, o que não permite que a qualidade de som seja a que seus discos merecem.
Seguinte... Raiz Candeia
Data: 1971
Gravadora: Novo esquema
Mais um disco relançado em CD pela ABW. O título também foi modificado, desta vez para Filosofia do Samba. Este disco já vem recheado de músicas que se tornaram clássico. Tem a própria Filosofia do Samba, que também foi lindamente gravada por Paulinho da Viola em seu primeiro disco de 1971; Vai pro lado de lá, regravada por Arlindo Cruz e Sombrinha; De qualquer maneira, música obrigatória nas boas rodas de samba; e a belíssima Minhas Madrugadas, parceria com Paulinho da Viola.
Samba de Roda
Data: 1975
Gravadora: Tapecar
Disco com músicas de Candeia (e parceiros) e do cancioneiro popular, como jongo, maculelê, partido alto e capoeira. Neste disco Candeia aprofunda ainda mais sua pesquisa da cultura negra brasileira. Relançado em CD pela ABW.
Partido em 5
Data: 1975
Gravadora: Tapecar
Participação de Candeia num LP que foi sucesso instantâneo na época em que foi lançado. Tanto que rendeu mais duas continuações (a última delas já sem o mestre). Os outros bambas que tomam parte neste disco são: Velha, Casquinha, Wilson Moreira, Anézio e Joãozinho da Pecadora. O CD é parco em informações, não tem qualquer tipo de encarte, mas pelo que os músicos falam entre as faixas ainda se descobre que a cozinha do disco é dos mestres Luna e Marçal.
Partido em 5 - Vol. 2
Data: 1976
Gravadora: Tapecar
O sucesso do primeiro disco foi tão grande que mereceu este segundo volume. Desta vez, os outros bambas além do Candeia são: Velha, Casquinha, Wilson Moreira, Anézio e Hélio Nascimento. Mais um para se procurar na seção de saldos das lojas. Nesta série foi lançado ainda um terceiro volume que, apesar de manter apenas o Wilson Moreira, junta outros sambistas como Monarco e Noel Rosa de Oliveira. Foi relançado em CD pela ABW.
Quatro Grandes do Samba
Data: 1977
Gravadora: RCA-Victor
Disco histórico que reuniu para sua gravação nada menos do que Candeia, Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito e Elton Medeiros. O disco, que juntou quatro dos maiores sambistas, foi lançado em CD, mas somente no Japão. Os brasileiros não têm acesso a esta obra-prima. Note-se que Candeia canta somente as músicas de sua autoria.
Luz da inspiração
Data: 1977
Gravadora: WEA-Atlantic
Um clássico do mestre. Só que como foi gravado por uma grande gravadora multinacional, este disco nunca foi relançado em CD, o que é um verdadeiro desrespeito à nossa cultura.
Axé! Gente amiga do samba
Data: 1978
Gravadora: WEA-Atlantic
Este é um clássico absoluto. Um dos mais importantes discos da História do Samba. Todas as músicas são conhecidas por quem gosta de samba e sempre marcam presença nas boas rodas. Grande parte das faixas deste disco foi lançada em CD dentro da coleção Mestres da MPB, que infelizmente está fora de catálogo. Hoje em dia, é impossível conseguir este disco.












