Histórias de Carnaval
Vila
Isabel - Paixão temperada com cola e paetês
Por Ricardo Almeida
O ano era 1980. Tinha apenas 14 anos e, apesar de toda minha família desfilar, eu nunca tinha pensado nesta possibilidade. Queria mesmo era ir ao maracanã ver o mengão, jogar futebol na praia e, quem sabe, arrumar uma namorada. Ah, isto sim era o meu sonho! Nunca tinha beijado ninguém! Mas naquele ano, não me lembro bem porque, minha mãe começou a me incentivar a desfilar dizendo pra mim: "Vamos, é muito legal! Você vai adorar!". No início não dei muita bola, até porque tinha um problema comigo mesmo: Como eu era gordinho, morria de vergonha do meu corpo e ficava apavorado com a possibilidade de colocar uma daquelas fantasias de índio só com umas penas na cabeça e uma sainha, igual as fantasias do Cacique de Ramos! E a barriga? Como iria esconder? As arquibancadas naquela época eram pertinho da sapucaí e a impressão que eu tinha era de que TODOS iriam olhar para mim e começar a rir.
Apesar do pânico, inconscientemente fui me acostumando com a idéia. Com o carnaval chegando, minha mãe começou a botar pressão e dizia: "Vamos, menino! Deixa de ser bobo!". E quando chegou em janeiro, se me recordo bem, ela me disse, taxativa: "Você tem que dizer se vai ou não vai desfilar, porque senão não vamos conseguir fantasia!". Mesmo com toda esta pressão, disse que não queria desfilar. A vergonha ainda era maior do que a vontade, até porque ainda não tinha visto a fantasia e não sabia o que poderia vir. Até que um dia as fantasias chegaram, e pra minha felicidade, era uma fantasia de pierrot! Calça comprida, aquela coisa redonda que se enfia pela cabeça que não me lembro o nome e um chapéu. Totalmente vestido! Começava ali meu sonho. Desfilar pela minha escola. Mas ainda tinha vergonha e era inseguro demais! Quando todos já pensavam que não iria mais desfilar, a três dias do desfile, virei para minha mãe e disse: "Eu quero desfilar!". O incentivo que me dera anteriormente se transformou em indignação: "O quê? Depois desse tempo todo que a gente falou e só agora você diz que quer desfilar? Tá maluco? Não dá mais tempo!". Depois de alguns instantes, ela falou: "Então, vou falar com sua tia (minha tia era quem fazia as fantasias!) e ver se ela consegue fazer uma fantasia para você. Se ela disser que sim, você vai se virar para pegar a fantasia!". Era tudo que eu queria ouvir. Uma ponta de esperança. Tinha certeza que minha tia não iria negar. E assim foi. Ela fez a fantasia e fomos buscá-la. Quando chegamos em casa, minha mãe se vira para mim e diz: "Só tem um problema: como já está em cima do carnaval, não deu para sua tia decorar a fantasia, e você vai ter que colar uns paetês nela, tá bom?". Disse: "Tudo bem!". Imediatamente ela me deu um vidro de cola e um saco de paetês. Mas não era qualquer saco. Era pra eu colar nada menos do que 1000 paetês na fantasia! Um por um! Tava bom demais pra ser verdade. Fiquei sexta e sábado de carnaval colando os malditos paetês, enquanto minha família se acabava no Bola Preta! Mas colei tudinho, inclusive meus dedos!
Depois dessa maratona, finalmente chegou o dia! Fomos para a Marquês de Sapucaí todos juntos e foi uma emoção indescritível. Parecia que tudo acontecia longe, que eu estava num plano diferente das pessoas. Quando a escola entrou na avenida, a confirmação. Fomos a terceira escola, um samba maravilhoso do Martinho e um desfile sensacional, digno de campeão. Tudo deu certo. Lindo. A Vila só não foi campeã neste ano porque um jurado deu 8 ou 9 no samba-enredo e justificou dizendo que tinha "dormido" na hora do desfile. Coisas que aconteciam naquela época.
Bem, depois disso nunca mais consegui ficar longe do carnaval. Foram 20 desfiles pela Vila e outros tantos em escolas menos expressivas. Mas, uma coisa que vem de dentro a gente não consegue segurar. A minha paixão pela Vila, pelas pessoas que fazem a escola, pela sua bateria, seu estilo de desfile, é algo muito particular. Pudera! Meu Anjo da Guarda é azul e branco!
Um abraço!

