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Por Pedro Ayres. 21/04/09
Quem se cansa do Rio?
Sair para comprar pão em um domingo como o último é qualquer coisa. Acordar em um domingo como o último é sentir, de fato, que o coração está batendo. Viver no Rio de Janeiro é covardia com a alma. As praias lotadas, o mar Azulzinho da Silva. A beleza carioca desfilando seminua em cada metro quadrado da cidade maravilhosa. O paladar é da cerveja mais gelada que o ambulante tiver no isopor – pelo menor preço possível. Ou água de coco. Ou mate com limão. E quatro da tarde tem Maraca. Lotado. Majoritariamente em vermelho e preto. O que podem fazer os rivais? Até isso é característica de um domingo inesquecível como este 18 de abril de 2009.
O jogo amarrado e estudado nada combina com o sol escancarado em cada canto quente da cidade. O jogo mole e estranhamente ajeitado muito combina com o desfile das Escolas de Samba – mas isso não vem ao caso, pelo menos nesse nosso primeiro encontro. Na verdade, após essa nova vitória do Flamengo, a única coisa que consigo enxergar é o sol que já se pôs. O Rio de Janeiro que continua sendo. Bendito Renato Lage – o maior artista do carnaval contemporâneo! Bendito Salgueiro que, no ano passado, trouxe a mais bela de todas para o centro do espetáculo pela milésima – e incansável - vez.
Porque é aquela coisa: carnaval tá ficando chato, todo ano a mesma coisa. E haja índio. Haja escravos. Haja último setor com “x + y= carnaval”. Amazônia demais. Portugueses demais. Rio de Janeiro para sempre. Mas aí, como diz a gordinha da TV, “póóódi”. O Rio de Janeiro não cansa. Aquelas alas de times de futebol não cansam. Afinal, se mesmo com o Flamengo ganhando sempre Campeonato Carioca não cansa, como vão cansar as irreverentes e animadas alas em uma Sapucaí coreografada e pesada com suas histórias sobre Macapá?
Sim, essa nossa apresentação é um atestado de paixão inapelável pelo Rio de Janeiro. Esse pretenso colunista não aguenta mais Manaus ou índios pescadores. Mas não cansa nem um pouco de deixar o sol bronzear – com fator 50 na fuça. Não cansa nem um pouco ser o Rio e rir à toa. Não cansa nem um pouco ser a cidade modelo e coração do Brasil – como cantou a longínqua Mangueira de 1954. Isso porque, no fundo, se um bando de boçais fazem o possível e o impossível para enterrar a cidade e o próprio carnaval, nunca é demais exaltar esses domingos – com morenas na praia, que gingam no samba - inesquecíveis como o que vivemos neste 18 de Abril. Visionário Renato Lage – como sempre!
E provavelmente já ficou claro que tipo de sambista está do lado de cá. Um sambista que está de saco cheio das Macapabas e, assim, muito satisfeito com a vitória do eclético “Tambor”. Um carioca incorrigível e burguesamente com saudades de Tom e Vinicius, mesmo que politizado o suficiente para estar preocupado com a política de confronto do governo Cabral e o excesso de choques (midiáticos) do prefeito Paes. Mas um carioca otimista o suficiente para achar que, apesar das derrapadas, as decisões dos jovens e ambiciosos Sérgio e Eduardo trarão alguma melhora para a cidade.
Mas cabe rever o samba do Rio. Cabe rever a política de segurança do Rio. Cabe rever a importância que a festa mais importante do mundo recebe gestores cariocas. E também os quão valorizados são os verdadeiros artistas. E como as escolas estão preparando os seus carnavais repetitivos. E quando será o próximo desfile sobre o Rio! Bem, os próximos dois domingos serão de Maraca lotado – com maioria vermelha e preta, é claro. E que tenha muito sol e cerveja! E aí, sem nenhum medo de ser repetitivo, dá a maior vontade de desfilar pelo sambódromo com aquelas fantasias de Cristo Redentor. Há enredos repetitivos e enredos repetitivos. Ainda vamos falar muito sobre isso.
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