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Por Rafael Rezende

 

ivone lara

A dama pioneira

 

"Ela é a síntese do samba. Tem o ritmo dos tambores do jongo e a riqueza melódica e harmônica do choro. Em seu canto intuitivo está um pouco da África e do negro americano”.
Túlio Feliciano, diretor do show realizado por D. Ivone Lara no Canecão, em depoimento ao jornal O Globo.

Caro leitor, responda: Pelo seu conhecimento sobre carnaval, quantas mulheres estão integradas em alas de compositores nas escolas de samba? Os anos se passaram, a mulher passou a competir em iguais condições com o homem nas mais variadas profissões, mas o reino dos sambas de enredo é quase que exclusivamente masculino.

            Se atualmente são poucas mulheres que se aventuram neste campo, imaginem há décadas atrás, quando a sociedade era totalmente regida por princípios masculinos. É neste contexto que surgiu Yvonne Lara da Costa, nascida em 13 de abril de 1921.

             Yvonne perdeu a mãe com três anos de idade, e o pai aos doze, indo morar com os tios aos 17 anos, após sair de um colégio interno. Foi com o tio Dionísio Bento da Silva que aprendeu a tocar cavaquinho.

            Aos doze anos já compunha, porém esta atividade se intensificou a partir de 1947, quando foi morar  em Madureira e começou a freqüentar a extinta Prazer da Serrinha, escola de samba da qual se originou o Império Serrano. Casou-se com Oscar Costa, filho do presidente da agremiação, sendo a autora do samba-enredo com que a escola atravessou a avenida em 1947, "Nasci pra Sofrer”.  Compôs muitos sambas e partidos-alto, sempre apresentados pelo seu primo Mestre Fuleiro aos sambistas, dizendo que as músicas eram de sua autoria, por conta do preconceito vigente na época.

           ivone lara Ivone Lara teve uma carreira repleta de momentos especiais. Estudou música com Lucila Guimarães, primeira esposa do maestro Villa-Lobos, tendo recebido elogios e cantado sob a regência deste; apresentou-se em vários programas, como o do Chacrinha. Clara Nunes, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulinho da Viola e Beth Carvalho, dentre outros, gravaram suas composições, se destacando a interpretação de Maria Bethânia e Gal Costa em “Sonho Meu”, canção vencedora do Prêmio Sharp em 1978.

O sucesso de “Sonho Meu”, junto com a aposentadoria de enfermeira permitiram que Dona Ivone impulsionasse sua carreira artística, vindo a gravar seu primeiro LP em 1978, "Samba, Minha Verdade, Minha Raiz". 

O reconhecimento gerou premiações, tais como: Medalha Pedro Ernesto, pelos serviços prestados à música e à cultura, e  troféu "Eletrobras de Música Popular Brasileira”, no ano de 1999; prêmio da Academia Charles Cros de Paris-França, pelo seu desempenho no CD internacional “Nasci pra sonhar e cantar”, em dezembro de 2001; Prêmio Caras/2002 na categoria de “melhor disco de samba”; Prêmio Shell de Música/2002, em reconhecimento aos 55 anos de carreira artística. Nada mais honroso, porém, do que o “Dona” que lhe conferiu o radialista Adelzon Alves. Um “Dona” que representa em suas quatro letras todo respeito e valor que o mundo do samba e qualquer pessoa com um mínimo senso musical lhe dão.
Gravou até hoje 13 cds, se destacando o álbum Bodas de ouro, lançado em 1997 em comemoração aos seus 50 anos da carreira, e com participação de grandes artistas brasileiros. Anos antes, em 1988, vendeu 600 mil cópias apenas nas agências do Banco do Brasil, com "Há sempre um nome de mulher", gravando sambas-enredo como "Alô, alô, taí Carmem Miranda" e "Xica da Silva”.

ivone laraNa carreira vitoriosa de D. Ivone, há ainda que se destacar os vários shows que realizou no exterior, cantando na Europa, América do Norte e do Sul, África e Ásia. Carreira internacional à parte, pois ela pode ser do Mundo, do Brasil, mas foi no Império Serrano que Dona Ivone deu a principal cartada de sua história profissional. Nos tempos de Prazer da Serrinha, chegou a sair como porta-bandeira, a convite do sogro. Com o fim da agremiação, entrou para o Império, para a qual compôs alguns sambas-enredos, como "Não Me Perguntes" (com Fuleiro) e "Os Cinco Bailes da Corte ou Os Cinco Bailes da História do Rio" (com Silas de Oliveira e Bacalhau). Este foi  inesquecível, pois foi com ele que Dona Ivone tornou-se a primeira mulher a fazer parte da ala de compositores de uma escola de samba, no ano de 1965. Silas de Oliveira e Mano Décio, grandes nomes do Império, tornaram-se parceiros de Ivone Lara em algumas composições.

 “Ivone Lara – eu diria sem medo de errar – foi tão pioneira com esse evento extraordinário quanto Chiquinha Gonzaga o fora menos de cem antes ao abraçar e praticar, com fúria e volúpia, a música carioca, também exclusiva dos adões.”
                                                                                                                        
Ricardo Cravo Albin

Com o tempo, deixou de compor para a escola, tornando-se madrinha da ala dos compositores do Império. Desde1968 desfila pela ala das baianas. Porém, nos últimos anos desfilou em variados setores da escola, como velha-guarda, destaque em alegoria, na ala dos compositores ou na ala dos cabelos brancos.

A grande dama do samba, Dona Ivone Lara é como o próprio samba: de pele negra, traz um contraste absurdo entre a força da raça e a serenidade do brasileiro que encontra paz na batida frenética que dá ritmo às nossas vidas, sejam elas batidas do coração, sejam no batuque dos tamborins, surdos, caixas e taróis.

Talvez falte no samba hoje a sensibilidade feminina, o seio que amamentou a música brasileira, o ventre que gerou nossa cultura. Talvez o samba peça o colo aconchegante da mãe negra, os braços protetores e, principalmente, o amor incondicional e eterno que a mãe pode oferecer a seu filho. Que Dona Ivone sirva de exemplo, e a força da mulher possa dar vida nova ao samba brasileiro.

 

”Portanto, seja como mulher pioneira nas escolas e como compositora de clássicos da MPB, seja como cantora portentosa e como personagem de irresistível fascínio pessoal, Ivone Lara fez por onde merecer o consagrador dona antes do nome. O dona de Ivone outro significado não terá senão a versão honorífica do império britânico. Ela é, sim, nossa única dama de realeza da MPB: Dame Ivone Lara. À bênção e Axé!”
                                                                                         Ricardo Cravo Albin

 

 

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