

Por Rafael Rezende
Renato Lage-Criador e Criatura
Fase 1- O Mundo do Criador
Olorum, misto de infinito e eternidade, criou a Terra e o céu de Oxalá para gerar Angaju e Iemanjá. Iemanjá, Candace do Candomblé, rainha das águas do mar, abriu caminhos para que no Brasil aportasse a ginga africana, o luxo dos europeus, e por que não, uma gota de suor e sangue de todos os povos do mundo, para que aqui se formasse um povo miscigenado, possuindo a nobreza de sintetizar os caprichos do Criador.
Assim quis as Mães Feiticeiras, donas do destino da humanidade, conhecedoras dos segredos da vida, que tinham a capacidade de manipular os opostos e, dessa forma, manter o equilíbrio do universo. Dessa forma, após séculos em que o ser humano atingiu o absurdo de se opor a ele mesmo, ele se vê em equilíbrio dentro da apoteose brasileira: o carnaval.
Coube então às mães baianas, as Candaces do samba, construir a ponte que ligou a dura realidade ao reino da ilusão. Elas, sob o comando de Tia Ciata, ofertaram seus seios para alimentar o samba, criaram-no em aconchegante colo, um refúgio das dores do mundo geradas pela Macobeba, o monstro estrangeiro. Este ser repugnante, porém, emprestou à nossa festa um pouco da beleza plástica de seus grandes eventos. E neste solo fértil floresceu um gigante, no talento de oferecer arte ao samba, sem jamais prejudicá-lo, sem jamais se render às artimanhas do nosso vilão Macobeba: Renato Lage.
Fase 2- A Criatura no Mundo do Criador
Renato, como todo bom carioca malandro, soube driblar as dificuldades da vida. Começou a trabalhar fazendo charges para jornal, cursou cenografia e, trabalhando na TV Educativa, conheceu Fernando Pamplona, o responsável por levá-lo ao mundo do carnaval, onde Lage ilustrou a decoração do carnaval do Rio de Janeiro e ingressou na Academia do Samba e também dos carnavalescos, Acadêmicos do Salgueiro, em 1977.
Passou por Império Serrano, Caprichosos de Pilares e Unidos da Tijuca, além de algumas passagens pelo Salgueiro, sua escola atual. Mas, virando nas viradas dessa vida, chegou à Mocidade, realizando a grande virada na sua carreira. Mais do que os títulos, foi um dos grandes responsáveis pelo o sucesso da agremiação por toda a década de 90. Ganhou ali admiração e reconhecimento popular em maior escala, guiou a escola para momentos de glória, onde via-se nas laterais da avenida um público em êxtase e na pista uma legião de torcedores orgulhosos. Por anos e anos, a Mocidade consagrou-se, pelas mãos de Renato Lage, a campeã moral. A brilhante estrela da escola, em néon verde, fez brilhar também a estrela do carnavalesco, que esculpia em Padre Miguel seu nome para a posterioridade.
Fase 3 – A Criatura e Seu Mundo: olha pra mim, diga quem sou, eu sou o espelho, sou o próprio criador
Renato Lage, misto de infinito e eternidade, recriou a vida, por um feto dentro do Globo terrestre, no Planeta de águas regidas por Iemanjá. Iemanjá abriu caminhos para o sonho tão real de um tricampeonato, afinal sonhar não custa nada. Porém, aqui se nasce jogando, perdendo ou ganhando, estamos sempre em busca da felicidade, mesmo diante das derrotas.E ziguizagueando, seguimos em frente, mantendo firme a fé, pois sabemos que Padre Miguel sempre estará olhando por nós.Guiados pela estrela que nos guia, mergulhamos na magia do carnaval, e uma vez acesa a chama da emoção, nos entregamos de corpo e alma na avenida.
Quando nos damos conta, estamos em outro mundo, em outra dimensão. É o Planeta Ilusão, onde tudo é possível. Lá, vemos uma escola de samba trazida por sapos em sua comissão de frente, pavilhão defendido por bailarinos, pierrô usando uma gola com copos plásticos, violinos ao som do samba, e centenas de Gandhis trazendo a bateria. É o regozijo de uma raça, formando um mundo tão surpreendente. Estamos na Terra do Nunca brasileira, que certo dia viu índios desceram de uma nave tão brilhante para avisar que na realidade a Terra do Nunca verdadeira é o próprio Brasil. Para isso, porém, é necessário viver em paz para ser feliz, amar o país, seguir a Deus e plantar o bem.
Fase 4-Fusão dos Mundos Opostos: Criador e Criador - Planeta Ilusão e Planeta Realidade
Retornamos então ao picadeiro da vida.A vida é um globo da morte: intensa, rápida e incerta. Por maior que possa ser a contradição, esta é a regra das Mães Feiticeiras -o equilíbrio do universo através do domínio dos opostos. E Renato, criador de um mundo e criatura em outro, experimentou quase que simultaneamente, entre os dois mundos, o sabor da vida e da morte: a morte de um filho de 16 anos em um acidente de carro às vésperas do carnaval, e a vida exuberante passando diante de seus olhos na avenida, no pulsar da bateria, na alegria dos componentes.Em um enredo sobre o circo, tal qual um palhaço, ria por fora, chorava por dentro. E assim se despediu da agremiação de Padre Miguel.
De volta ao Salgueiro, definiu a vida como um curto espaço de tempo entre a morte. Como dizia Renato e Márcia Lávia, sua esposa e companheira profissional: do pó viemos, ao pó voltaremos. Portanto, aproveitemos a vida breve, valorizando as glórias do passado, gastando toda energia enquanto houver o combustível da existência, e torcendo para que não terminemos no fogo do inferno e nem nas harpas dos anjos do céu, (lamento decepcioná-los, mas céu não tem batucada) , mas quem sabe todos juntos em uma animada “rave” embaixo da terra, afinal, não somos nem melhores nem piores, apenas diferentes.
Fase 5-A União Entre os Criadores: A Apoteose
Renato Lage se tornou referência para muitos carnavalescos, sobretudo quando se trata de sua marca high-tech, apenas uma das várias facetas de sua arte. Sendo assim, o carnavalesco mostrou que sabe também revisitar o passado, promovendo desfiles mais tradicionais, ou até utilizar o estilo barroco.Mesmo indo ao passado não deixa de ser inovador.
Não bastasse tudo isso, é um artista que sabe respeitar e valorizar a importância cultural e social das escolas, não deturpando o passado e a tradição das agremiações, chegando a ponto de exigir das próprias agremiações um reencontro com suas raízes. Compreender a alma do carnaval talvez seja de todas a sua maior virtude.
Prêmios:
Tamborim de Ouro (Jornal O Dia)
1999- escola mais criativa, melhores alegorias, melhores fantasias, escola mais comunicativa (Mocidade);
2000- beleza de mensagem (Verde, amarelo, azul-anil, colorem o Brasil do ano 2000);
2001- beleza de mensagem (Paz e harmonia, Mocidade é alegria);
2002- escola da alegria (Mocidade);
2007- escola da alegria (Salgueiro).
Estandarte de Ouro (Jornal O Globo)
1991-melhor escola (Mocidade), melhor ala das baianas
1993- melhor ala (Alegria do Galo);
1995- melhor enredo (Padre Miguel Olhai Por Nós);
1996- melhor enredo (Criador e Criatura);
1999- melhor escola (Mocidade), melhor enredo (Vila Lobos e a Apoteose Brasileira);
2002-personalidade;
2003- melhor escola (Salgueiro);
2005-melhor ala das baianas
2006- melhor enredo (Microcosmos: O que os olhos não vêem, o coração sente).
2007- melhor ala das baianas
Resultado oficial
Campeonatos-1990 (Vira, virou, a Mocidade chegou), 1991 (Chuê, chuá, as águas vão rolar), 1996 (Criador e criatura);
Vice-campeonatos - 1984(Foi Malandro, é), 1992 (Sonhar não custa nada! Ou quase nada), 1997(De corpo e alma na avenida).
Matérias Relacionadas:

