Aniversariantes do mês:

A equipe do Boletim do Samba parabeniza todos os Sambistas Aniversariantes do mês de Junho e deseja muita luz, paz e saúde. Que Deus lhes conceda muitos carnavais. Abraços!!!

ESPAÇO ABERTO
1- Rogério Rodrigues 03/06
2- Fábio-Original 13/06
3- Alex Salgueiro 04/06
4- Matheus Madeira  14/06

5- Maurício Barbosa  07/06

SETOR 1

1- Alessandro Ostelino 11/06

2- Amante do Samba 22/06

 


 

Por Rafael Rezende

 

 

O Herói da Liberdade



Samba, oh samba/ Tem a sua primazia/ Em gozar de felicidade...

Silas de Oliveira Assumpção nasceu em 04 de outubro de 1916, indo morar em Madureira, Rio de Janeiro. Filho de pastor protestante teve educação rígida. Foi criado na Rua Maroim (hoje Rua Compositor Silas de Oliveira), no sopé do morro da Serrinha.

Com 14 anos, já compunha hinos religiosos. O coração, porém, procurava pelo batuque que ecoava morro afora. Mas Silas encontrou resistência diante do pai, que via naquela música uma “manifestação do diabo”. O pai arrumou então uma vaga de professor de português para o filho no Colégio Assumpção, com a expectativa de que assim Silas desistisse do gosto por aquela música profana.

O tiro é claro, saiu pela culatra. Não sabia o pai de Silas que o samba é, em sua essência, o vôo para a liberdade, um convite à resistência. O samba não se prende, não se separa de ninguém que o procura, e quando alguém tenta tal ato insano, faz-se mais forte, afinal nasceu das entranhas africanas, junto a sangue, suor e esperança, uma combinação que agüentou as dores mais profundas da raça humana e, a partir de então, suporta qualquer coisa que surgir em sua frente. Mais que o instinto do samba, que chama por si só, o acaso também teve a sua parcela de contribuição. Eis então que Silas começa a namorar uma de suas alunas, a jovem Elaine dos Santos, com quem viria a se casar mais tarde. Elaine, junto ao jornaleiro e amigo Mano Décio da Viola, e Antônio dos Santos, o Fuleiro, foram os responsáveis por introduzir Silas de Oliveira nas rodas de samba. Ele passa então a freqüentar os pagodes nas casas das tias baianas, com muita bebida, comida e batucada. Com Décio compõe seu primeiro samba em 1934, “Meu Grande Amor”.

Passa a participar da escola de samba Prazer da Serrinha, compondo e integrando a bateria. Esta era uma das escolas de samba mais ricas, em termos musicais, que já existiu. Lá se cultivavam, além das modalidades mais comuns de samba, o jongo e o partido alto.

Em 1946, compõe seu primeiro samba-enredo, “Conferência de São Francisco” ou “A Paz Universal”, também em parceria com Mano Décio. Naquele ano foram forçados e, ao mesmo tempo, estimulados com o decreto baixado pelo então presidente Getúlio Vargas, no qual obrigava as escolas a desfilarem com enredos nacionalistas. Com o intuito de passar cultura para o povo, a agremiação inova ao organizar-se em alas, cada qual com uma função definida dentro do enredo. A partir daquele ano, as outras escolas aderiram a tal idéia, moldando-se ao novo estilo carnavalesco constituído.

Tal inovação, porém, causou uma dissidência na Prazer da Serrinha, uma vez que alguns integrantes não concordaram com a novidade. Dessa dissidência surgiu o Império Serrano, agremiação fundada por Silas, Fuleiro, Sebastião de Oliveira, o Molequinho, dentre outros.

No Império, compôs 16 sambas, dos quais 14 foram para a avenida, alguns desses presentes em qualquer lista dos melhores sambas da história. Em 2002, por exemplo, em uma eleição realizada pelo jornal O Globo com a participação de 70 especialistas, o samba-enredo Heróis da Liberdade (1969) foi escolhido como o melhor do carnaval brasileiro, ficando ainda outros dois sambas de Silas entre as cinco primeiras colocações: “Aquarela Brasileira” (1964), em terceiro, e “Cinco bailes tradicionais na História do Rio” (1965), em quarto.

Heróis da Liberdade teve a letra modificada em decorrência da censura durante a ditadura militar. O mesmo ocorreu em 1960, com o samba "Medalhas e Brasões" que, às vésperas do carnaval, foi embargada pelo Departamento de Turismo, devido à pressão exercida pela Embaixada do Paraguai, que considerava a letra ofensiva a Solano Lopez, chamado de ditador no samba.

A partir de 1969 os sambas-enredos passaram por grandes modificações, principalmente no andamento acelerado. Silas e Mano Décio não se adaptaram a elas, pois acreditavam que essa mudança era responsável pelo empobrecimento do samba-enredo. Nos anos seguintes, Silas de Oliveira começou a ter alguns problemas com a diretoria da escola, o que culminou com a derrota de seu samba para o carnaval de 1972, "Alô, Alô, Taí, Carmen Miranda", que não teve nenhum dos seis votos em disputa. Afastou-se do Império Serrano, mas manteve-se fiel a outros amigos sambistas, como Mano Décio, Mauro Duarte, Délcio Carvalho.

Silas viveu em uma época em que se fazia samba pura e simplesmente por amor. Viveu humildemente, trabalhando como funcionário público. No dia 20 de maio de 1972, participava de uma roda de samba organizada por amigos com a finalidade de arrecadar dinheiro para ajudar no estudo de sua filha, quando teve um infarto fulminante. Com 55 anos, estava no palco de sua vida, cantando "Os Cinco Bailes da História do Rio". Socorrido, chegou morto ao hospital. Seus sambas foram gravados por cantores consagrados com Roberto Ribeiro, Jamelão, Martinho da Vila, Elza Soares, Paulinho da Viola e Cartola. O corpo foi velado na Associação das Escolas de Samba do Rio de Janeiro e o enterro foi acompanhado pelos maiores nomes do carnaval. Por sugestão de Natal, a despedida fez-se através dos versos de “Heróis da liberdade”.

"Um dia, o sambista Silas de Oliveira amanhecia mais uma vez com seu amigo inseparável Mirinho, ao lado também da inseparável garrafa de cachaça. Talvez permanecessem como aqueles homens de quem Max Ernst disse que nunca saberão. Mas Silas perguntou: ‘Mirinho, você sabe o que é o infinito?’. Talvez nesse momento um outro bêbado fosse anonimamente subindo lá adiante uma ladeira da favela, não precisamente indo para o céu, embora parecesse, na luz irreal daquela manhã. Irreal como são todas as luzes das manhãs que nascem para os olhos daqueles que atravessam insones noites ébrias. O que é certo é que Silas disse: ‘Você vai andando por ali e o infinito vai te acompanhando’. Mirinho comentou envaidecido: ‘Um poeta nos mínimos detalhes, este meu amigo Silas de Oliveira’. A manhã nascia radiosa".

Rumo ao infinito, ele se foi. Junto ao infinito, ele se fez. De coroa imperial na cabeça, cravejada de poesia, com toda a pompa e circunstância, subiu a Serrinha, em direção ao céu negro, numa noite ébria, pronto para seu eterno cargo de estrela da folia. Desapareceu na luz irreal da manhã. Foi certamente um herói do samba, e por conseqüência, herói da liberdade.



Sambas no Império Serrano:


1950-Batalha Naval do Riachuelo - com Mano Décio e Penteado - 1º lugar
1951- 61 Anos de República - com Mano Décio - 1º lugar
1953- O Último Baile da Corte Imperial ou Ilha Fiscal - com Waldir Medeiros - 2º lugar
1954- O Guarani - com Waldir Medeiros, João Fabrício e Antônio dos Santos - 2º lugar
1955- Exaltação a Caxias - com Mano Décio - 1º lugar
1956-Caçador de Esmeraldas - com Mano Décio - 1º lugar
1957- D. João VI ou Brasil Império - com Mano Décio e Penteado - 2º lugar
1960-Medalhas e Brasões - com Mano Décio - 1º lugar
1964- Aquarela Brasileira - 4º lugar
1965-Cinco Bailes Tradicionais Na História do Rio de Janeiro - com D. Ivone Lara e Bacalhau - 2º lugar
1966- Glória e Graças da Bahia - com Joacir Santana - 3º lugar
1967- São Paulo, Chapadão de Glórias - com Joacir Santana - 2º lugar
1968-Pernambuco, Leão do Norte - com Joacir Santana - 2º lugar
1969-Heróis da Liberdade - com Mano Décio e Manoel Ferreira - 4º lugar

 

Matérias Relacionadas:

- Marcelo Misailidis

- Dona Ivone Lara

- Dominguinhos do Estácio

- Pinah

- Beth Carvalho

- Lucinha Nobre (parte1)

- Lucinha Nobre (parte 2)

- Renato Lage

- Silas de Oliveira

 

Sobre Nós | Webmaster | Política de Privacidade | Copyright ©2005-2006 Tradição do Samba - Todos os Direitos Reservados