

Por Rafael Rezende

O Balé Brasileiro- Parte 2
Nesta edição do Estrelas da Folia, você pode conferir a segunda parte da entrevista concedida por Lucinha Nobre ao Boletim do Samba.
“O presidente Osmar Valença me prometeu um lugar em qualquer ala, mas quando cheguei ao ensaio e vi a Sheila (filha do Mestre Louro) dançando, cismei que queria fazer aquilo também: queria ser porta-bandeira. O Osmar não aceitou e me disse:“ Minha filha, escolhe qualquer lugar. Pode até vir sambando na frente da bateria, mas porta-bandeira já tem. Além do mais, é difícil, você não vai aprender assim ”. E eu respondi no alto dos meus nove anos que eu fazia balé e que era muito parecido. Eu só precisaria de um tempo para aprender. Uma semana depois eu já era porta-bandeira, com saia rodada e tudo (feita pela minha mãe em apenas uma semana).
Rafael - Você anunciou em entrevista, ano passado, que havia feito uma aposta com Fernando Horta, presidente da Unidos da Tijuca, a respeito de vir a ser rainha de bateria. É apenas uma brincadeira, ou a aposta é séria?
Lucinha - A aposta é séria, mas segundo ele eu já perdi. Espero conseguir realizar meu sonho lá por serviços prestados, como brinde (risos). Senão, vai ser em outra escola que me queira como rainha, é meta e desejo antigo.
Já estou me preparando, fico treinando com as passistas na quadra, tenho até sapato de mulata. (risos)
Rafael - Então por conta de apenas um décimo perdido este ano você perdeu a aposta com o Horta?
Lucinha- É... Eu tento argumentar com os dois décimos extras... Ele é muito engraçado, e "ninguém entende mais de carnaval do que eu" é uma das suas frases de impacto.
Rafael - Bom, parece entender mesmo, porque elevou a Tijuca ao nível das principais escolas no carnaval atual...
Lucinha - Ele deu oportunidade a pessoas incríveis como Carlinhos de Jesus, Paulo Barros, Wantuir, Sérgio Lobato, o próprio Ciça foi contratado a peso de ouro pela Tijuca, entre vários outros que ele deu oportunidades. Ele sabe montar uma boa equipe. O Nêgo também, ele pagou aula de canto e tudo pra ele.
Rafael - Você é uma das poucas que não saem no inicio da escola. Como você vê essa mudança? Porque a preferência em continuar na frente da bateria?
Lucinha - Acho que ano que vem serei a única, porque o Império desceu. Estou na frente da bateria, porque é muito mais gostoso, e porque lá na Tijuca a escola desfila toda para gente, não temos problemas de evolução. O Almir faz um trabalho incrível de harmonia, assim podemos nos dar a esse luxo. Escola compacta, bem ensaiada, está acostumada com o ritmo da nossa dança, então dá certo pra todos nós. E o Fernando Horta gosta de ver os dois quesitos ali juntos, um anima o outro.
Rafael - E você nunca se sentiu atrapalhada pela presença da imprensa "atrás" da rainha de bateria, já que houve casos em que a rainha aparecia na justificativa dos jurados, como a culpada pela perda de ponto do casal de mestre-sala e porta-bandeira?
Lucinha - A Tijuca sempre soube separar isso bem, e a Fábia, neta de porta-bandeira, nunca deu mole, porque nasceu respeitando a dança. Com a (Adriane) Galisteu eu conversei, passei todas as instruções, e foi tranqüilo, porque ela é super experiente e muito profissional, fez tudo o que eu pedi, e ano que vem vai ser melhor ainda. Na Tijuca, a estrela é realmente a bateria, a madrinha abrilhanta, mas não domina a cena, está inserida, é diferente, não sei se você entende...
Rafael - Sim, entendo.
Rafael - Quais as suas fantasias preferidas?
Lucinha - As fantasias que usei em 1987, 1993 e 2001, na Mocidade, e na Tijuca, 2003, 2005 e recentemente todas, porque acho que agora estou pegando o jeitinho. Já sei o que me cai bem, encontrei meu estilo e procuro fazer sempre algo diferente.
Rafael - Então você participa do processo de criação também?
Lucinha - Sim, claro, desde o comecinho, antes de ir pro papel.
Rafael - A fantasia de 2001, na Mocidade, chegou atrasada. Como foi isso pra você, os momentos de concentração a espera da fantasia?
Lucinha - Nossa, isso foi horrível, foi definitivo e determinante para a minha saída da escola, inaceitável... E passei por isso com o pessoal da Intrépida Trupe, além das minhas 30 crianças da comunidade que eu ensaiei por um ano inteiro! Foi uma vergonha! E o pior foi que ninguém me procurou depois para pedir desculpas, e aquilo me revoltou. Aí o Rogério vinha sendo convidado há alguns anos pra Tijuca, e acabamos indo. Até hoje ninguém me procurou, e eu não soube de mais nada...
Lucinha, a própria nobreza bailando na avenida, apresentando ao mundo como se faz o balé brasileiro, rico em cultura, poesia, leveza, beleza e força. Traz o pavilhão da alegria, o nosso jeito de celebrar a vida: o carnaval. Traz o giro intenso, a roda da vida: a plenitude. Plenitude que dá vida à vida, e enche de luz o cotidiano, realidade difícil de se enfrentar.
No carnaval, basta dizer que é uma das melhores, não só atualmente, mas entre todas da história. Construiu na avenida versos que ficaram na memória das escolas de samba. E com atitude, passou a defender, com maestria pouco antes vista, a bandeira do samba.
Matérias Relacionadas:

