

Por Rafael Rezende

O Balé Brasileiro- parte 1
A coluna Estrelas da Folia apresenta uma novidade nesta edição, pois quem estará contando a importância de sua presença no carnaval não sou eu, mas sim a própria: Lucinha Nobre.
Desde 1984, seu ano de estréia como porta-bandeira, já são 24 anos, cinco Estandartes de Ouro, incontáveis notas máximas, e muitos momentos marcantes.
Lucinha começou como porta-bandeira mirim, no Estácio de Sá (Chora, chorões) e no mesmo ano na Alegria da Passarela. Na Mocidade, estreou na ala das crianças, em 1984, e na função de porta-bandeira, em 1986. Tornou-se a primeira porta-bandeira com apenas 16 anos, em 1992. Defendeu o pavilhão da Mocidade até 2001, com uma breve pausa (1999, 2000) apenas por causa do nascimento de seu filho, Yannick. A partir de 2002, Lucinha passou a apresentar com a habitual desenvoltura a bandeira da Unidos da Tijuca, agremiação em que se encontra até hoje.
Segue abaixo a primeira parte da entrevista que Lucinha concedeu ao Boletim do Samba:
Rafael- Lucinha, podemos começar a entrevista pelo carnaval de 1997, afinal não foi qualquer um para você. Como foi a proposta e sentimento de desfilar como bailarina?
Lucinha - Bom, a proposta foi engraçada. O Pedro (Jorge Pedro Rodrigues, presidente da Mocidade na época) passou uma semana falando que tinha uma proposta para mim, mas achava que eu não aceitaria. Ele e o Renato Lage ficaram “nessa” uma semana. Eu nem sabia do que se tratava, mas já queria aceitar, sem ter noção do que fosse. Aí, quando eu soube, falei: vocês são loucos! Ninguém vai dar dez para uma porta-bandeira de bailarina!
Rafael- Como foi a preparação?
Lucinha- Aí eu tive que voltar para o balé e o Rogério também entrou. Foi maior trabalheira: dedicação absurda, ensaios, ensaios, ensaios...
Rafael - E você passou a acreditar na nota máxima?
Lucinha- Não, eu apostei com o Renato que perderia pontos. Ele disse que perderia apenas em uma cabine, e como naquela época caía a menor e a maior nota, ele disse que não haveria problema. Eu falei que perderia em duas cabines, e aí somaria outra nota. No final eu me enganei, perdi 1(um) ponto do Tito Canha, mas esta caiu, porque as outras notas eram dez.
Rafael- E vocês fizeram isso sem medo, ou seja, arriscaram todas as fichas,
afinal era a então campeã do carnaval...
Lucinha- O Pedro e o Renato estavam alucinados com a idéia. Eu estava morrendo de medo, e por isso fiz questão de me cercar dos melhores profissionais. Trabalhei com bailarinas, ensaiadoras e costureiros do Teatro Municipal, e fiz o melhor que eu pude no dia. Foi lindo, muito emocionante mesmo! Porém, na hora “H” senti um pouco de medo, sim.
Rafael- Conseguiram manter isso em segredo na época até o desfile?
Lucinha- O jornal O Dia descobriu antes, e a gente negociou para soltar apenas alguns dias antes do desfile, o que foi até bom, porque acho que foi digerido melhor pelos jurados... Foi matéria de capa, tenho até hoje.
Rafael- E como foi a reação do público?
Lucinha- Parecia que eu estava pelada, todo mundo me olhava com cara de susto. E o povão gritava, gritava alto, eu lembro que mal ouvia o samba, era um “ooohhhhh” sonoro, sabe?
Rafael- Você achou aquele espanto uma resposta positiva do público? Achou que eles gostaram?
Lucinha- (risos)... Acho que gostaram sim, mas todo mundo se surpreendeu!
Eu lembro que eu estava na avenida ensaiando, e de repente chegou uma comitiva da Liesa para acompanhar o nosso ensaio de madrugada e ver o que a gente estava preparando...
Enfim, foi um desfile inesquecível.
Rafael- Lucinha, indo para os tempos atuais, como está o preparativo para o Pan, na qual você participará do evento de Abertura?
Lucinha- Tem sido uma tarefa difícil, porque são muitos ensaios. O Comitê de abertura fez o convite, todos os casais do Grupo Especial foram convidados, mas apenas Tijuca, Mocidade, Viradouro, Portela e Tradição estarão lá, além de casais representantes de escolas menores ou alunos, em um total de 20 casais, e mais umas 3 mil pessoas.
Rafael- E a fantasia desenhada por Rosa Magalhães?
Lucinha- Ainda não experimentei, mas estou curiosa. Adoro o trabalho dela, tem um colorido bacana, estou ansiosa.
Rafael- Já viu o desenho da fantasia?
Lucinha- Só experimentamos o chapéu por enquanto, não vi ainda a fantasia.
Rafael- Mudando de assunto, quais foram as porta-bandeiras que lhe inspiraram?
Lucinha- A Vilma (Nascimento) pra mim sempre foi a soberana, porém eu não a vi em seu auge, só por vídeos mesmo. Mas aprendi muito com a Rita Freitas e com a Andrea Machado, elas foram minhas professoras e me ensinaram o básico. Claro que também fui muito influenciada pela Babi, porque fui segunda (porta-bandeira) e mirim dela, cresci a vendo dançar junto comigo.
Rafael- Quais porta-bandeiras você considera as melhores atualmente?
Lucinha- Gosto muito da Geovanna (Mangueira) e da Simone (Viradouro). Acho que a Alessandra Bessa (Portela) tem futuro, e Daniele Nascimento (Tradição) também é ótima, mas precisa voltar para o (Grupo) Especial. A Alê da Rocinha também é boa, além de Selmynha Sorrisoz (Beija-Flor).
Rafael- Você dançou muitos anos com o Rogerinho, por que aconteceu a separação?
Lucinha- Porque tinha que acontecer. Ele quis voltar para a Mocidade, quebrando um contrato assinado com a Tijuca. Eu não quis quebrar o contrato, aí ele acabou voltando sozinho e eu tive que recomeçar do zero, tudo de novo.
Rafael- Foi difícil se acostumar com outro parceiro?
Lucinha- Não foi difícil porque já era um desejo de 2 anos, eu estava doida para mudar os ares, minha relação de amizade com o Rogerinho estava saturada, mas como dançávamos muito naturalmente juntos, acabávamos adiando a separação, até que um dia aconteceu, sem mais nem menos...
Rafael- Como ocorreu a decisão de quem seria seu novo par?
Lucinha- Já era uma coisa pensada há alguns anos, o Bira sempre foi minha segunda opção, sempre pensei nele comigo, sempre gostei da postura dele.
Rafael- Há muita diferença entre dançar com o Rogerinho e com o Bira?
Lucinha- Intimidade a gente só consegue com tempo, é como num relacionamento, o meu com o Rogério durou 10 anos e foi bom enquanto durou. O Bira é meu atual e agora, no terceiro ano, está começando a ficar bom. A gente sabe que ainda tem muito para evoluir, mas posso dizer que esse foi o nosso melhor ano e ainda temos muito que melhorar. Agora que estamos começando a criar aquela intimidade que eu falei antes, sabe? A gente começa a se falar com o olhar, e isso é o principal.
Rafael- Você consegue em uma apresentação, perceber se o jurado gostou ou não dela? Percebe quando não vem uma nota máxima?
Lucinha- Com certeza. Falei o tempo todo que a Beatriz Badejo não tinha gostado de nossa apresentação este ano, e de fato ela deu 9.9.
Só pela cara do jurado eu já sei se ele tá gostando ou não, até porque com o tempo já os estudei e sei o que eles gostam. E até quando vejo a apresentação de outros casais eu já sei o que vem na justificativa. Normalmente acerto e acho que eu seria uma boa jurada (risos).
Rafael- E do quê os jurados gostam?Qual é o segredo do sucesso?
Lucinha - Passo! Não vou ficar dando luz! (risos)
Pula essa pergunta.
“Em 1995 ganhei a minha primeira credencial trânsito livre. Foi quando me apaixonei definitivamente pelo carnaval. Naquele ano, pude acompanhar a apresentação dos meus casais de mestre-sala e porta-bandeira preferidos. Além de admirar o bailado deles, pude conhecer melhor a Passarela do Samba e criar minhas ‘estratégias de combate’, como: saber qual a melhor hora de beber água sem que as pessoas percebam; descobrir até onde o jurado está me vendo durante a apresentação... Enfim, buscar resultados para algumas paranóias que, se encontrados, podem nos levar à nota máxima. Com o tempo, aprendi também saber perder, analisar meus erros e aprender com eles. E acima de tudo não repeti-los. De jeito nenhum!”
Rafael- Entre os carnavalescos há muita inveja, vaidade. Entre as porta-bandeiras, você já percebeu algo assim?
Lucinha- Eu acho que tem muita inveja sim, e tem muito “disse-me-disse”. Um dia a porta-bandeira é sua amiga e tal, e no outro dia alguém vem faz um inferninho, uma fofoquinha, e pronto, você perde uma amizade que achava que tinha. Já aconteceu comigo mais de uma vez.
Rafael- Já são 5 estandartes de ouro, como você se vê dentro do carnaval, e a importância que seu nome vai criando entre as porta-bandeiras?
Lucinha - Eu acho que vou ser lembrada como a porta-bandeira que trouxe o clássico para a dança super tradicional da porta-bandeira. E fico muito orgulhosa por isso, sei que criei um estilo.
Tento fazer o melhor que posso e sei que sou um exemplo para muitas meninas. Por isso, sou muito dedicada e gosto de espalhar o meu conhecimento, pois quero que o meu estilo seja bem difundido.
“O balé me ajudou muito. A minha postura sempre foi diferente, era um estilo que hoje em dia você vê em diversas, como Christiane Caldas e a Marcela Alves, por exemplo. Mas quando eu comecei isso não era vantagem nenhuma, pelo contrário, alguns achavam até desrespeitoso. De lá pra cá a minha paixão aumentou cada vez mais. A reação das pessoas quando digo que sou porta-bandeira é sempre engraçada: oscila entre o espanto e a euforia”.
Prêmios:
Estandarte de Ouro:
-1989- revelação
-1993, 2003, 2006, 2007- melhor porta-bandeira
Tamborim de Ouro:
-2004-Casal Nota 10-Lucinha e Rogério.
-2005 e 2007- Casal Nota 10- Lucinha Nobre e Bira.
Na próxima edição, a segunda e última parte da entrevista com Lucinha Nobre.
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