

Por Rafael Rezende

O Conto da Cinderela Brasileira
Era uma vez uma bela jovem, loira, olhos azuis, bochechas rosadas, um sorriso meigo e encantador...
Contos de fadas são um tanto previsíveis. Por hora, a realidade mostra-se mais fascinante do que o irreal. Sugiro então que invertamos os papéis entre o mundo imaginário e nossa realidade, para ver como a fantasia é muito mais interessante quando ela evidencia sua existência diante de nossos olhos incrédulos, e se faz soberana nesse chão de caos, cacos e canções.
Se me permitem, vou tentar iniciar o conto novamente.
Era uma vez uma bela jovem, negra, careca, um sorriso vibrante, que oferecia às pupilas dos brasileiros toda a luminosidade e exuberância da raça negra, em carne e osso. Filha de uma dona-de-casa com um operário, trabalhava como manequim para Jésus Henrique, quando recebeu o convite dele e de seu amigo, Joãozinho Trinta, para desfilar no Salgueiro, em 1975. Após a mudança de Joãozinho para a Beija-Flor, e com a vitória da agremiação nilopolitana em 1976, com o enredo “Sonhar com o Rei dá Leão”, sente-se motivada a ir para a escola em que faria história, logo depois. Em maio de 1976, os ventos sopravam alterando o curso da versão viva e tropical da Gata Borralheira.
O ano de 1978 trouxe consigo o nome de Pinah, outrora borralheira, mas que uma vez Cinderela, sempre Cinderela. O episódio, tal qual um conto de fadas, percorre no conhecimento popular, como um episódio singular na história da nação. O Príncipe Charles, em sua estada carioca, driblou o protocolo durante uma recepção no Palácio da Cidade, para sambar com aquela passista vigorosa. Da galeria dos personagens inusitados que emergem do meio do povo, surgia Pinah. E vocês podem imaginar a sensação da passista em seu momento de glória? Provavelmente, uma emoção única, não? Então leiam: “Não senti nada na época porque não sabia quem ele era”. É... A realidade é definitivamente mais surpreendente que os contos de fadas.
Do Palácio da Cidade para o palco do carnaval, tornou-se nome certo na lista de estrelas da Beija-Flor. Tanto foi assim que em 1983 ganhou um setor do desfile em sua homenagem, dentro do enredo “A Grande Constelação das Estrelas Negras”, consagrando a agremiação como a última campeã fora do Sambódromo, com os inesquecíveis versos “Pinah êêê Pinah/A Cinderela negra/Que ao príncipe encantou/No carnaval com o seu esplendor”.
Viajou com a Beija Flor quase que o mundo inteiro. Porém, deixou de ser destaque da escola em 1989, no antológico “Ratos e Urubus Larguem Minha Fantasia”. O relógio batia a 12ª badalada, anunciando a meia-noite, quando sua carruagem alegórica voltou a ser uma simples abóbora. Um ano bem oportuno, diga-se de passagem, se considerarmos o enredo proposto por João Trinta. No carnaval em que os mendigos invadiram a avenida, decidiu pendurar o sapatinho de cristal por alguns anos, preferindo se dedicar à família. Felizmente, logo depois voltou a ser presença certa nos desfiles da Beija-Flor, ainda que com um figurino mais comportado.
Atualmente, tem um trabalho bem propício para sua história de personalidade carnavalesca: é gerente do Palácio das Plumas, a loja que fornece material para praticamente todas as agremiações paulistanas, e cujo proprietário é seu verdadeiro príncipe encantado, Elias Ayoub. Sua filha, Claudinha, desfila desde os 6 anos na Beija-Flor.
Pinah, nome marcante na história do carnaval. Uma das principais personalidades da história da Beija-Flor, que simboliza perfeitamente a força que vem do chão de Nilópolis, lugar aonde Pinah não nasceu, mas foi adotada e construiu seu nome. Fez de sua história a fantasia mais perfeita de carnaval, um conto pra ninguém botar defeito.
E nem preciso dizer que ela se casou e foi feliz para sempre.
Para sugestões e Comentários: rafaelodr@yahoo.com.br
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