

Por Rafael Rezende

BETH CARVALHO
O amor em verde-e-rosa
Escola de samba não é feita somente por aqueles componentes que valem quesito: mestre-sala, porta-bandeira, carnavalesco, compositores, etc. Esses certamente são fundamentais para um bom desempenho da agremiação na avenida. Porém, longe dos holofotes da Sapucaí, os personagens principais são outros.
O principal componente que sustenta uma agremiação longe da avenida, e que acaba também por refletir no desempenho da escola entre as arquibancadas e camarotes do Sambódromo, é um elemento bem simples, conhecido pelo ser humano desde que o mundo é mundo: o amor. Alheio ao universo de glamour, dinheiro e espetáculo que se formou dentro das agremiações, na superfície da história do carnaval carioca, o amor ainda reside lá, como elemento sustentador de toda essa história. E é nesse âmbito que se destaca ELIZABETH SANTOS LEAL DE CARVALHO, ou Beth Carvalho, como preferirem, nascida no Rio de Janeiro, no dia 05 de maio de 1946.
Fosse Beth uma “mera” apaixonada pela Mangueira, ou fosse uma “mera” cantora de samba, já teria lá seus êxitos. Mas ela foi além, unindo o útil ao agradável, a paixão e a profissão. E foi com essa intenção que entrei no site oficial da cantora (www.bethcarvalho.com.br), a fim de descobrir detalhes da relação de Beth com a Mangueira. Pois bem que, de entrada, percebi como essa relação acontece: o site é todo em verde-e-rosa. Isso diz tudo. De boas-vindas, Beth cantando Folhas Secas: "Quando eu piso em folhas secas/ Caídas de uma mangueira/ Penso na minha escola/ E nos poetas da minha Estação Primeira/ Não sei quantas vezes/ Subi o morro cantando/ Sempre o sol me queimando/ E assim vou me acabando...". Quando se abre o site, aparecem várias “Beths” verdes e rosas. E aí se percebe o quão explícito é a relação: Mangueira e Beth se confundem, ao longo da história de ambas.
E não foi à toa que Beth conseguiu o status de digamos, porta-voz dos mangueirense. Beth já gravou mais de 80 sambas relacionados à Estação Primeira. Mangueirense desde criança é também madrinha da ala de compositores da Mangueira e Madrinha da Bateria da verde-e-rosa. Através de sua influência dentro da música brasileira, acabou utilizando seu sucesso para mostrar ao Brasil e ao mundo a importância e o amor que sua agremiação move nela e em outros milhões de brasileiros.
Sua constante declaração de amor à Mangueira não teria se estendido tanto, porém, se a artista não tivesse levado antes sua música para os quatro cantos do Brasil, mundo, e até mesmo universo.
Beth aprendeu música em casa, por ter uma avó que tocava bandolim e violão, e um pai amigo de grandes artistas da época, como Sílvio Caldas, Elizeth Cardoso, Aracy de Almeida. Ganhou reconhecimento nacional ao ganhar o 3º lugar no Festival Internacional da Canção (FIC), com a canção Andança, de Edmundo Souto/Paulinho Tapajós/Danilo Caymmi, sendo este seu primeiro grande sucesso e o título de seu primeiro LP, lançado em 1969.
O reconhecimento mundial veio ao longo dos 40 anos e 30 discos de sua carreira. Hoje, Beth tem sua carreira musical incluída no currículo escolar da Faculdade de Música de Kyoto, um busto na Grécia, e no currículo shows em importantes eventos e festivais de todo o mundo.
O “reconhecimento universal” chegou em 1997, quando a música Coisinha do Pai foi programada pela engenheira brasileira da Nasa, Jacqueline Lyra, para ativar um robô em Marte. E nem no Brasil nem em Marte alguém poderia “dormir” ao som de uma das mais empolgantes e famosas músicas de seu repertório.
Sua prateleira de prêmios que recebeu ao longo da carreira é longa: seis Prêmios Sharp, 20 Discos de Ouro, 10 de Platina, melhor intérprete do Festival da Canção da TV Globo, Prêmio da ABPD (Associação Brasileira de Produtores de Disco) de maior vendedora de disco, dentre várias outras premiações. Mas, de todas, provavelmente o maior reconhecimento que ganhou foi o título de “Madrinha do Samba”, por ter descoberto boa parte dos sambistas que hoje compõe o cenário do samba brasileiro, e também por sempre ter gravado grandes compositores, consagrando-os, ou novos compositores, apresentando-os à grande mídia nacional. Na lista de cantores descobertos por Beth, estão Zeca Pagodinho, Grupo Fundo de Quintal, Jorge Aragão, Almir Guineto, Arlindo Cruz, Sombrinha, Luis Carlos da Vila, Bezerra da Silva, Seu Argemiro, Beto sem Braço, Sombra, Marquinho PQD, Quinteto em Branco e Preto, etc. Outra homenagem importante foi realizada no carnaval de 1984, quando a Unidos do Cabuçu a homenageou com o enredo “Beth Carvalho, a enamorada do samba”. Ganhou também uma homenagem da Velha Guarda da Portela, por ter sido a cantora que mais gravou seus compositores.
Tendo o pai cassado pelo golpe militar em 1964, aproveitou sua música também como instrumento para difusão de suas idéias e protestos políticos. Gravou o hino do MST – “Ordem e Progresso”, cantou para o presidente venezuelano Hugo Chávez, e gravou canções como Onde Está a Honestidade?, Salário Mínimo e Corda no Pescoço (“E o povo como está? / Tá com a corda no pescoço...”).
Em dezembro de 2005, fez com que o samba, que antes não podia passar pela porta do Theatro Municipal, hoje estivesse dentro dele. Trata-se do show que gerou seu mais recente dvd. Beth já gravou também um dvd sobre o samba baiano, este, porém, ainda será lançado.
Assim, Beth construiu um prestígio e reconhecimento inflexível ao longo da carreira, bem além dos ídolos com validade curta que costumamos assistir a mídia consagrando e, na mesma velocidade, derrubando. E colocou todo seu talento e sucesso à disposição da Estação Primeira. Se Jamelão é a eterna voz da Mangueira na avenida, pode-se dizer que Beth Carvalho é a voz da Mangueira fora dela. Se no Sambódromo o pavilhão é carregado por Geovanna, quem leva a combinação única de verde-e-rosa ao mundo é Beth.
Beth Carvalho é a responsável por traduzir na voz o sentimento que a nação mangueirense carrega no peito. E o amor é chama eterna e forte que, definitivamente, não se desfazerá por causas menores.
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