Por Afonso Celso

Desfiles Imortais – Unidos da Tijuca/2004 – O sonho da criação e a criação do sonho. A arte da ciência no tempo do impossível.
Entrem na máquina do tempo com a Unidos da Tijuca, que veio em grande estilo para desfilar no carnaval de 2004, com um enredo que, dentre outros objetivos, fora concebido para mostrar a todos os inventos e descobertas ao longo da história da humanidade, tudo o que um dia foi sonho, e que virou realidade. Toda essa retórica foi reinventada por Paulo Barros, o autor do enredo.
No decorrer do desenvolvimento do enredo, explicita-se a razão e os meios que influenciaram tudo: o que um dia eram meros ou vagos pensamentos, e que, devido a necessidade do homem em evoluir, se condensa, toma formas, recriam-se, aperfeiçoam-se, desaguando na concretização e resolução dos problemas “bio-sociais” do homem, gerando grandes inventos do ser humano. A inteligência, faculdade deixada por Deus aos seus filhos, quase sem querer parece desafiá-lo. Quase sempre extasiada, segue a humanidade experimentando e desfrutando dos avanços tecnológicos, de novos bens de consumo, de curas provenientes de descobertas científicas. A busca pela imortalidade e o autoconhecimento são exemplos que reforçam a tese que o homem deseja igualar-se ao seu Criador, como poderemos observar abaixo, num dos trechos da bela sinopse Tijucana.
“... Nossa máquina do tempo chega ao século XX. Um tempo onde o homem conseguiu decifrar o poderoso código que comanda nosso corpo: o DNA. Esse setor anuncia as experiências de manipulação da própria vida. A manipulação dos genes nos colocou diante de uma tecnologia que pode dar origem a novos seres vivos. A clonagem de mamíferos já é uma realidade e nos coloca diante de um conflito ético de proporções ainda não imaginadas: o clone humano. Ao mesmo tempo em que o mapeamento do genoma humano promete identificar as causas de muitas doenças, é temerário imaginar o futuro de seres humanos com capacidades e características escolhidas antes de nascer. A conquista do DNA é a antiga tentativa do homem de alcançar a imortalidade....”
Terceira escola a desfilar, na primeira noite do Carnaval Carioca, Grupo Especial, ainda na concentração, a Tijuca era aguardadíssima! Estreava na escola Paulo Barros, depois de um bem sucedido trabalho no Grupo de Acesso. Barros era a grande aposta da diretoria da Unidos da Tijuca, e nos bastidores prometeu um desfile sem igual, tanto em relação à própria Escola, como à crítica e ao público. Quatro mil componentes tiveram a permissão de iniciar o desfile que entraria para a história do carnaval contemporâneo, um verdadeiro “divisor de águas”, falando numa linguagem mais franca.
Popular, o notável desfile inicia-se com uma Comissão de Frente bonita e totalmente diferente de tudo o que se vira na Passarela do Samba, até o desfile tijucano. Sob rodas, confeccionada em dourado, com um material leve, e uma armação similar ao alumínio, ou latão, a indumentária reluzia, ao refletir o brilho das luzes. Era um resumo do enredo, com várias peças sobrepostas à fantasia. Na cabeça, a réplica de um cérebro humano, com uma performance elogiável, arrancava aplausos à medida que passava nas arquibancadas e distintos setores da Sapucaí. Eu, particularmente, tenho-a como uma das mais criativas e impactantes comissões de frente do carnaval até hoje.

A Tijuca fez um desfile avassalador. Uma chuva de bom gosto e inovação arrebatou o público, que acompanhava o desfile extasiado, frente à magnífica e surpreendente apresentação da Escola. O desfile foi pautado essencialmente no novo, no que tange a concepções, formas e matérias. Acima de tudo, Paulo Barros superou as expectativas. Observemos esta alegoria abaixo, que fica evidente tudo o que fora dito e ouvido acerca desse desfile.

Lucinha Nobre e Rogerinho, 1º Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, estavam elegantemente vestidos e conduzindo o pavilhão da Escola. Com competência e maestria, obtiveram nota máxima no referido quesito.
Compunha a bateria da Unidos da Tijuca 300 ritmistas, comandados por Mestre Celinho, que fizeram bonito, como também bonita brilhou Fábia Borges, a Rainha da Bateria.
Mas a sensação do desfile Tijucano ficou por conta de uma alegoria, intitulada DNA, uma demonstração do poder de inovação de Paulo Barros que, inclusive, ganhou o Estandarte de Ouro na Categoria Revelação. Do alto de um carro, figurantes coreografaram com os braços, simulando a presença e movimento dos genes humanos, mais uma feliz concepção do carnavalesco, dentro deste magnânimo desfile.
Num ano marcado por reedições, a Unidos da Tijuca traz um enredo inédito, criativo, de fácil entendimento, que culminou ao merecido Estandarte de Ouro na categoria, e o tanto quanto ousado Paulo Barros desponta como uma das promessas no mundo do carnaval. A comunidade do Morro do Borel fez brilhar a sua estrela, nesta grande constelação multicor que é o carnaval. A Escola nos deu várias lições de vida e carnaval.
Um refrão que se imortalizou e por pouco não se cumpria, o que está escrito nele, um sonho que a qualquer momento pode tornar-se realidade!
“Sonhei amor, e vou lutar
Para o meu sonho ser real
É a Tijuca, campeã do Carnaval”
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