

Por Thatiana Pagung
“PEQUENO CARNAVAL VENCE GRANDE CARNAVAL”
O Centro do Rio de Janeiro estava se modernizando, cada vez mais sendo freqüentado pela burguesia, e cada vez mais “parecendo” Europa, EUA... Cara de Brasil, não, por favor, deixa a cara de Brasil para os subúrbios e morros, porque o ar da cidade maravilhosa tinha que ser parisiense!
A melhor música era a estrangeira, nosso cinema tinha que ser como o de Hollywood... . Como o de Hollywood?... É, se os musicais hollywoodianos causavam “furor”, tínhamos que fazer como eles: filmes musicais! Bom, tentamos fazer. Essa foi à verdade, ficamos apenas com a vontade de ser como Hollywood. Mas, dessa “tentativa”, nasceu um gênero que na época não foi bem aceito. Hoje, sabemos como ele é rico, e gostoso de assistir – a Chanchada, mesmo com todas as críticas, lotou as salas de cinema nas décadas de 30, 40 e 50.
Ao assistir esses filmes (principalmente os mais antigos), devemos ter um olhar totalmente neutro, não podemos assistir de forma comparativa, ou seja, pensando como é o nosso carnaval hoje, no quanto o samba é sinônimo de carnaval. Na década de 30, o samba ainda se firmava como gênero musical, e levou um tempinho para virar sinônimo de carnaval, que acabou acontecendo devido ao nascimento das escolas de samba.
Esses filmes carnavalescos possuíam a essência do carnaval, mas não necessariamente, em seu repertório, tocava-se samba. Depois que o samba se firmou como gênero musical, as estrelas do rádio começaram a gravar... Aí o samba na Chanchada virou febre, apareceram vários filmes com a palavra “samba” em seu título, como por exemplo: “Samba em Brasília”, “Quem roubou meu samba?”, “Garotas do Samba”. O samba enfim virava moda.
É, a voz do povo é a voz de Deus, e assim foi com o nosso carnaval, o “Pequeno Carnaval”, popular, cresceu e superou o “Grande Carnaval” da burguesia, sendo retratado até nas telas do cinema e tornando-se símbolo de brasilidade.
No final da década de 50, a afirmação nacional era fundamental. Nosso cinema já caminhava para o cinema novo, mostrando mais filmes autorais, sinceros, criativos, revolucionários, com um olhar sobre a política e sobre a realidade sócio-econômica, na tela já aparecia o homem urbano brasileiro.
As chanchadas foram sumindo, mas o samba já era independente, e mesmo nos filmes densos, onde se mostrava à realidade nacional, com problemas do cotidiano, podíamos ouvir um samba em sua trilha musical.
Considerado o precursor do Cinema Novo, o filme “Rio 40º”, de Nelson Pereira dos Santos, mostra o cotidiano carioca através de um olhar neo-realista. Cinco garotos que ganham a vida como camelôs, servem de fio condutor das muitas histórias que se entrelaçam, tendo como pano de fundo o estádio do Maracanã, o Pão de Açúcar, a praia de Copacabana, a Quinta da Boa Vista e uma favela. Com estas crônicas generosas, singelas e abertamente influenciadas pelo cinema italiano do pós-guerra, Nelson Pereira dos Santos provou ser possível produzir filmes mais baratos e autorais no Brasil. A música “A voz do morro” de Zé Kéti (ele também participou do elenco) fecha com chave de ouro o filme.
A Voz do Morro
(Zé Kéti)
Eu sou o samba
A voz do morro
Sou eu mesmo sim senhor
Quero mostrar ao mundo
Que tenho valor
Eu sou o rei do terreiro
Eu sou o samba
Sou natural daqui
do Rio de Janeiro
Sou eu quem leva a alegria
Para milhões de corações
brasileiros
Salve o samba, queremos samba
Quem está pedindo
É a voz do povo de um país
Salve o samba, queremos samba
Essa melodia de um Brasil feliz
Eu sou o samba
A voz do morro
Sou eu mesmo sim senhor
Quero mostrar ao mundo
Que tenho valor
Eu sou o rei do terreiro
Eu sou o samba
Sou natural daqui
do Rio de Janeiro
Sou eu quem levo a alegria
Para milhões de corações
brasileiros
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