

Por Thatiana Pagung
DE CIDADE MARAVILHOSA À CIDADE DO SAMBA E DO CARNAVAL
De 1903 a 1906, Pereira Passos faz uma revolução na Cidade do Rio de Janeiro. O Prefeito, também engenheiro, visava organizar a urbanização, sanear e civilizar a capital recente da República.
Em quatro anos de trabalho, conseguiu transformar o Rio num centro urbano moderno, inspirado na Belle Époque, deixando pra trás a imagem dos cortiços, e passando a ter cara de capital.
O mundo do automóvel, da fotografia, do cinematógrafo, do telefone, da luz elétrica, da vacina e de outros benefícios da modernidade não poderia conviver com epidemias, com ruelas esburacadas, becos escuros, e com a pobreza.
Apareceram novos parques, novas praças, novas avenidas, novos prédios, no melhor estilo Art Nouveau. A burguesia, então, desfilava e ostentava seu novo espaço. Todas essas obras de remodelação urbana, muito contribuíram para o título de Cidade Maravilhosa concedido ao Rio de Janeiro.
Dessa forma, os habitantes dos cortiços e malocas foram expulsos, criando-se dois mundos, o da elite civilizada e o da plebe atrasada.
As mudanças na estrutura urbana foram determinantes para se ter um novo olhar sobre a festa carnavalesca carioca. As nomenclaturas de Grande Carnaval e Pequeno Carnaval, cada vez mais foram espalhando-se pelo Brasil.
A elite, a classe do “dinheiro”, fazia parte do Grande Carnaval, onde as Grandes Sociedades realizavam as batalhas de confetes e os corsos.
As camadas mais populares faziam parte do Pequeno Carnaval.
Como já foi dito, o Rio de Janeiro da época passava por modificações urbanísticas, com a abertura da Avenida Central, e a expulsão de muitas famílias negras e pobres (entre elas, muitas famílias baianas que haviam se mudado para o Rio depois da Abolição da Escravatura, trazendo em sua bagagem o candomblé, e vários ritmos do samba, que aqui foram transformados no samba carioca) do Centro da cidade para, num primeiro momento, a Cidade Nova e, depois, para os subúrbios e favelas.
O samba nasceu e cresceu no Centro do Rio, e não nos subúrbios e morros, por onde se espalhou. A macumba era macumba, o samba era samba, o batuque era batuque, mas todos eram a mesma coisa. As cantigas eram as mesmas, os mesmos instrumentos, apenas no samba não havia manifestação dos orixás e incorporação como na macumba, era só cantar e tocar, era sapateado nos pés pelos homens, e nos quadris pelas mulheres.
Numa das noitadas musicais na casa da Tia Ciata, (a casa ficava na Praça XI) em 1917, alguns datam 1916, foi composto coletivamente o primeiro samba registrado, Pelo Telefone, que até hoje se cria uma polêmica em torno disso, pois alguns pesquisadores identificam a música A Viola, de Catulo da Paixão Cearense, como o primeiro samba gravado em 1914, apesar de Pelo Telefone, de Donga, ser o mais reconhecido. Essas questões de quem e quando se compôs, e registrou o primeiro samba, ficarão sem resposta, pois não acredito que descobrirão ao certo o ocorrido.
Nos anos 20, os locais de contato entre os membros das várias camadas sociais eram muitos. As muralhas da cidadania estavam construídas, mas os sons e a música não respeitaram essas paredes sócio-políticas, e é nesse contexto que aparece o moderno samba no Rio de Janeiro. Bairro boêmio, a Lapa, concentrava vários cabarés, restaurantes, salões, livrarias, cafés e botequins. Misturavam-se músicos, artistas plásticos, jornalistas, malandros, macumbeiros, meninos de rua, ou seja, havia um verdadeiro intercâmbio cultural. O samba não era exclusividade das comunidades negras, pois despertava interesse de alguns membros da elite social.
Em 1923 foi inaugurada a primeira estação de rádio brasileira. Foi crescendo o número de emissoras, e também o mercado de discos brasileiros. No final da década de 20, estava em ritmo de revolução, com o advento da gravação elétrica e a instalação de várias gravadoras no país. Os programas de maior audiência, em todo o Brasil, eram transmitidos do Rio de Janeiro. O samba tinha tudo a seu dispor para transformar-se em música popular brasileira, e não apenas uma música regional. O samba vai difundindo-se como gênero musical, modificando outros significados (de festa, de dança etc.) e o carnaval, principalmente por meio das escolas de samba, passa a ser quase um sinônimo de samba.
Após a revolução de 30, o samba carioca começou a colonizar o carnaval brasileiro, transformando-se em símbolo de nacionalidade. O Carnaval Carioca era visto como a grande festa nacional, e preparava-se para ganhar o mundo. O Pequeno Carnaval, o popular, crescia cada vez mais, fazendo com que o carnaval das Grandes Sociedades, aos poucos fosse diminuindo, e com isso, desaparecendo algumas manifestações carnavalescas.
Na próxima coluna darei continuidade ao assunto e traçarei um paralelo com o cinema da época.
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