

Por Thatiana Pagung
O RISO FALOU E A VOZ DO CARNAVAL CHEGOU!
Em junho de 1929 aconteceu a primeira exibição de um filme sonoro no Rio de Janeiro, e foi o que se esperava: uma noitada inesquecível. Com um detalhe: a primeira voz ouvida pelos cariocas não foi de um astro de Hollywood e sim de um diplomata brasileiro.
Desde o final da primeira década do século o cinema sonoro era um sonho perseguido de todas as maneiras. Os filmes eram mudos e artistas cantavam atrás da tela, longe da vista dos espectadores, às vezes utilizando-se de canudos e funis. Uma dublagem ao vivo, digamos assim. O humor já tinha voz. Só faltava dar voz ao carnaval.
Estima-se que meia centena de fitas de curtas-metragem tenham documentado o carnaval do Rio entre 1908 e o início dos anos 30. O carnaval da Avenida Central teria inaugurado o filão em 1906.
Mas a primeira produção do gênero a de fato encher os olhos dos espectadores (quinhentas exibições só no Rio) data de 1918: O carnaval cantado. O grosso do público se deliciava com as imagens da folia, a despeito do que determinados setores da sociedade teimavam em dizer e escrever sobre as festividades carnavalescas. Afirmavam ser divertimento condenável em nome de todos os princípios cristãos, e uma película que guardava e reproduzia essas cenas de bacanal, tinha que ser reprovada... Se era assim na capital da República, imaginem no interior do país!
O primeiro documentário carnavalesco inteiramente cantante chegou aos cinemas na quarta-feira de cinzas, no dia 1º de março de 1933. O título não poderia ser outro: O carnaval cantado de 1933. Durava pouco menos de uma hora e contrapunha cômicas intervenções de Genésio Arruda, e alguns números musicais de Jonjoca, Paraguaçu e os irmãos Tapajós sobre reportagens de pula-pula nas ruas e nos salões cariocas.
Por um anúncio, publicado no Jornal do Brasil, pode-se ter uma idéia do seu conteúdo:
“Pela primeira vez no Brasil, o carnaval gravado em filme com todos os seus ruídos!
CARNAVAL DE 1933
O primeiro filme falado e cantado, pelo sistema Movietone (o som gravado no próprio filme), feito sobre carnaval!
A chegada do Rei Momo – Os ranchos – Cordões – O corso – Batalhas de confete – Banhos a fantasia no Flamengo e Copacabana – Festa dos pijamas – As vencedoras agradecendo ao microfone – Os desfiles dos préstimos filmados à noite – Os bailes.
Um trabalho primoroso do Cine-Som Estúdios.”
Cinco dias depois da quarta-feira de cinzas de 1933 a Cinédia punha em cartaz A voz do carnaval, e dava um banho na sonorização artesanal de Fausto Muniz, um dos autores do média-metragem anterior.
A repercussão do filme atravessou o Atlântico. Em maio de 1936, A voz do carnaval foi exibido cinco vezes para as altas rodas parisienses.
Quando o carnaval começou a ter “voz” no cinema, os programas, em sua maioria eram chamados de “aquários” por causa do vidro que separava da pequena assistência que alguns deles tinham acesso. A visão era muito deficiente, pois do ângulo da platéia desconfortavelmente mal cabiam doze cadeiras. A qualidade do som que até lá chegava era pior ainda. O cinema só tinha a ganhar apresentando os artistas do rádio com um alô, alô mais democrático.
Enfim, a sonorização trouxe um upgrade a todo universo cinematográfico, e com isso, mostrando o carnaval na sua essência com todos os quesitos para o bom entendimento desta manifestação popular.
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