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Por Philip Nascimento

 

 

A METÁFORA DO GÁS DA SAPUCAÍ

 

Ô Ícaro, se não fosse o Sol em seu caminho...

A palavra motivação indica o conjunto de razões ou motivos que explicam, induzem, incrementam, estimulam ou provocam algum tipo de ação ou comportamento. A humanidade é alimentada por motivações, que foram responsáveis por todo um complexo processo de desenvolvimento que nos fez ir das cavernas ao espaço. E fomos pro espaço!

Muitas vezes esta motivação, este gás necessário para impulsionar as atividades da “metamorfose ambulante” chamada sociedade acaba por criar verdadeiras ciladas e, assim, um sonho acaba se transformando em um aprisionamento e evidenciando que os meandros que nos levam ao desenvolvimento nem sempre são aceitáveis pelo simples fato de serem um progresso. Os conceitos de novo e velho carecem revisão. Um grande passo pode significar um grande retrocesso e o Urânio-235 da Rosa de Hiroshima fala por si.

A história das sociedades é repleta de antagonismos e conflitos psicológicos, no melhor estilo “a mão que faz a bomba faz o samba”. Assim sendo, todas as ações e práticas do ser humano são embasadas em uma matriz realista ou utópica. O processo de elaboração da coluna desta semana também está consoante a este contexto, ou seja, algo me serviu de fator motivacional para esta nossa conversa e, neste caso foi tão somente a letra do hino da Grande Rio para o próximo carnaval, em que se vêem trechos de exaltação à escola, apropriando-se do trocadilho de que a escola é o “Gás da Sapucaí”, fazendo também uma menção ao enredo de mesmo assunto – o gás. Desta forma, conferindo à expressão uma abrangência um pouco maior, a pergunta balizar que aqui coloco é: Qual é o teu gás Sapucaí?

Certamente os ideais que movem o carnaval de hoje nem de longe lembram os que impulsionaram os seus primórdios, da mesma forma que, como disse, o homem de nossa contemporaneidade não almeja mais sair das cavernas, pois hoje ele está inserido em um novo cenário e corre em busca de novos ideais. Com efeito, esta regra também é aplicável às escolas de samba, a partir do momento em que as enxergamos como um produto de seu meio, que é regido por outros princípios e valores e, muitas vezes, estes tais valores de hoje entram em choque com os de outrora e a complexidade desta problemática talvez seja o grande dilema das escolas de samba deste novo mundo sem fronteiras. É preferível ser esta metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo? Um assunto a ser pensado e explorado mais adiante...

O primeiro entrave que se observa é o público para qual se destina os atuais desfiles das escolas de samba. A utilização de novos códigos comunicativos, de novas formas de interação com um público também mutante e, sobretudo, contextualizado em um meio ambiente da informação instantânea e vazia de significado denota o surgimento de uma nova matriz para a elaboração do carnaval. O interessante é observar o ano de 2004 através de uma análise introspectiva, tomando como base os extremos ali apresentados. Se por um lado víamos o surgimento de Paulo Barros, dando um verdadeiro tapa na cara de todos nós, por outro, o encantamento proporcionado por “Lendas e Mistérios da Amazônia” e “Aquarela Brasileira” nos fazia pensar no melhor caminho. Ironicamente, o título do enredo da Unidos da Tijuca trazia a expressão “O sonho da Criação e a Criação do Sonho”.
E 2004 foi um ano para se escolher o combustível que seria usado dali em diante.

Fazendo uma grosseira comparação e valendo-se essencialmente dos conceitos ocidentais da expressão, observa-se uma espécie de Perestroika sem Glasnost, em um palco altamente internacionalizado, onde os grêmios acabam perdendo uma referência e a produção cultural passa por um doloroso processo de enlatamento, que interfere direta e indiretamente em todos os setores de um desfile, em especial nos enredos e na sua realização em cena. Como já fora dito, a cosmovisão e a linguagem internacionalizada são características observadas nos enredos levados para a Sapucaí nos últimos tempos. Logicamente que a intenção não é promover um retrocesso na linguagem que fora continuamente vinculada aos desfiles das escolas de samba, mas sim tentar analisar os motivos que as levaram a este estágio altamente globalizado. Mais uma vez Raul Seixas aparece para nos dar um grande puxão de orelhas!

O que entra em cena para o público de hoje é uma resultante de elementos que não estão apenas restritos aos aspectos áudios-visuais, mas, sobretudo, ao aspecto mercadológico e este, por sua vez, abre um grande parêntese, onde se nota latente a importância do carnaval como uma ferramenta de customização do turismo na cidade do Rio de Janeiro; as interferências de investimentos mal direcionados na formatação de um evento que sirva, acima de tudo, de canal para a realização de interesses particulares enfim; as intervenções são das mais variadas possíveis e isso certamente acaba por desvirtuar os propósitos do carnaval, que precisa assumir um papel mais nacionalista no sentido de promover uma maior identificação com sua gente, pois o carnaval deve ser, antes de qualquer coisa, um retrato dos costumes, tradições e anseios de seu povo, que sem dúvida alguma é o grande gás necessário para mover esta engrenagem.

Somando-se a tudo isso ainda se incrementa o alto grau de profissionalismo do carnaval, bem como a sistematização de sua produção que serve de perfeita ilustração para observarmos a grande preocupação vigente, que é um resultado satisfatório, um retorno do investimento, e isso pode ser visto também como mais um fator de motivação, gás. Talvez todos ou outros pontos aqui colocados possam ser resumidos em uma única palavra – o resultado. A adoção de uma cultura de desfile mais organizada, planejada é válida, todavia há de se levar em consideração que a forma extremada e o cultivo deste movimento acabam por deixar tudo com um gosto artificial, como a China de Deng Xiaoping.

Se a grande crítica é afirmar que o carnaval está evoluindo com um combustível errado, que o gás que a Sapucaí vem utilizando se tornará insustentável em longo ou até mesmo curto prazo; pensar em utopia talvez não seja de todo errado, desde que haja mobilização para tal. Na grande tragédia grega em que se transformou o carnaval carioca, uma breve, porém válida, associação com o sonho de Ícaro se faz pertinente. Aprisionado no labirinto, Ícaro sonhava com a liberdade e, para isso, utilizou asas de cera. Todavia, no meio de sua aventura, o pobre filho de Dédalo se encantou e apaixonou-se perdidamente pela beleza do sol. Pobre Ícaro... Suas asas derreteram, fazendo com que ele, que sonhara com a liberdade fosse tragado pelo mar Egeu. Esta história mitológica é bastante simbólica em virtude das armadilhas que muitas vezes não podem ser detectadas a tempo.

Talvez o carnaval esteja padecendo deste mal. O encantamento é notório. Puro e simplesmente. O crescimento de um outrora movimento genuinamente popular, hoje mecanismo essencialmente mercadológico, nos faz pensar um pouco sobre quando o carnaval cairá nas profundezas do mar Egeu, tal qual o personagem mitológico aqui lembrado. Precisamos de gás para transformar nossa utopia carnavalesca em realidade.

 


Fale com Philip Nascimento
philip_nascimento@yahoo.com.br

 

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