

Por Philip Nascimento
COM QUE ROUPA?
Pensando nos últimos acontecimentos desta temporada pré-carnavalesca, em que alguns fatos insólitos abalaram as estruturas do mundo do samba e a possível perda de identidade de algumas escolas – em especial a Viradouro – uma sutil alusão ao samba “Com que Roupa”, de autoria de Noel Rosa no final da década de 20, faz-se pertinente. A obra foi construída com a finalidade de retratar de uma forma bastante descontraída a fome e a miséria de um país que ainda tinha ares de uma grande fazenda.
“Agora eu vou mudar minha conduta
Eu vou à luta, pois eu quero me prumar
Vou tratar você com força bruta
Pra poder me reabilitar
Pois essa vida não tá sopa, e eu me pergunto com que roupa?
Com que roupa eu vou?
Pro samba que você me convidou”.
A produção musical desta época traz uma perspectiva bastante interessante a partir do momento em que focaliza os tipos marginalizados e a difícil tarefa de levar a vida em tempos de República do café-com-leite e decadência da atividade cafeeira. Digamos que este samba de Noel seria uma espécie de “Deixa a Vida me Levar” da época. E esta alusão do “Com que Roupa” é bastante pertinente neste universo das escolas de samba cada vez mais carentes de uma identidade própria. As exigências de uma festa burocratizada acabam por anular as diferenças existentes e a ajudar na firmação de um ambiente homogeneizado, onde a capacidade crítica também acaba sendo anulada, formando-se, assim, um conjunto bastante artificial. Assim, não há necessidade alguma de escolher a roupa, pois na verdade percebe-se a existência de um uniforme padrão.
“Eu hoje tô pulando feito um sapo
Pra ver se escapo dessa praga de urubu
Já estou coberto de farrapos,
Eu vou acabar ficando nu
Meu paletó virou estopa, e eu pergunto, com que roupa?
Com que roupa eu vou?
Ao samba que você me convidou”.
Sobre a Viradouro a grande indagação é qual seria a real característica da escola de Niterói, partindo-se do pressuposto de que algumas escolas de samba possuem características que podem ser reconhecidas a léguas de distância. Desta forma, a Viradouro acabaria sendo vista como uma escola sem identidade em virtude da não adoção de uma linha estética perpétua, como se observa em outras agremiações, que perpetuam uma linguagem visual para todo o sempre. De certa forma este lógica é absolutamente cabível se tomarmos como base a idéia de que a identidade de uma escola mora tão somente em sua plástica e não em sua história como um todo. A construção de uma identidade, de uma imagem que se correlacione de forma instantânea com esta ou com aquela escola é uma tarefa que requer tempo e constância. Não adianta alimentar a idéia de que uma forma singular pode ser comprada ou importada.
“O português me deu fora
Foi embora e levou meu capital
Esqueceu a quem amou outrora
Foi no Adamastor pra Portugal
Pra se casar com uma cachopa, e eu pergunto, com que roupa?
Com que roupa eu vou?
Ao samba que você me convidou”.
Este pensamento é bem típico de nossa terra, que sonhava em ter cara de Europa e esquecia-se de criar uma identidade nacional. A vinda da Família real para o Brasil também é pertinente neste aspecto, pois traz consigo todo o aparato burocrático existente em Portugal. Segundo especialistas, advém deste período a burocratização das instituições tupiniquins. Porém, uma cara começa a ser esboçada no início do século passado, pois floresce uma ideal mais genuíno, onde a produção cultural acaba sendo um canal de denúncia da realidade brasileira, uma forma mais introspectiva em âmbito nacional.
A Viradouro não precisa assumir o papel de Conde Maurício de Nassau, pois o caminho trilhado pela escola até hoje sempre foi bastante satisfatório, se não tomarmos satisfatório como sinônimo de título.
Fale com Philip Nascimento
philip_nascimento@yahoo.com.br
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