Aniversariantes do mês:

A equipe do Boletim do Samba parabeniza todos os Sambistas Aniversariantes do mês de Julho e deseja muita luz, paz e saúde. Que Deus lhes conceda muitos carnavais. Abraços!!!

ESPAÇO ABERTO
1- Cris 24/07
SETOR 1

1- Dieguinho Mocidade 05/07

2- Philip Nascimento 20/07

 


Por Philip Nascimento

 

 

SETE PECADOS




“Que obra de arte é o homem, tão nobre no raciocínio, tão vário na capacidade, em forma e movimento, tão preciso e admirável; na ação é como um anjo; no entendimento é como um Deus, na beleza do mundo, o exemplo dos animais”.

O homem entrou no reino da utopia através da comemoração.
O surgimento de uma cultura secular, humanista e antropocêntrico, de inspiração greco-romana, coloca o homem novamente diante do espelho, diante da possibilidade de ter que lhe dar com vícios capitais, profanos e humanos, que parecem serem instintos deste exemplo de animal, como já dizia William Shakespeare em “Hamlet”.

Trazendo a conversa para os trópicos, o Brasil, em certa instância, transmite mundo afora esta idéia de que tudo é profano e o carnaval brasileiro é o grande responsável pela difusão desta idéia que é fruto, talvez, de nossa miscigenação e do sincretismo cultural e religioso que aqui fixou raízes. E, de fato, nosso “sassarico” é profano, seja ele no baile daquela cidadezinha escondida no mapa ou no concreto armado de Niemeyer, palco do “Gran Circo Brasil”. Apesar da crise dos controladores aéreos não nos permitir, vamos viajar um pouco por este universo profano que é o carnaval através dos estudos de Tomas de Aquino, destacando os sete vícios capitais, que estão presentes por toda parte e no carnaval temos a grande junção de todos estes desejos e paixões humanas.

Somos narcisistas. As escolas de samba também e neste universo em que elas estão inseridas, onde a VAIDADE reina absoluta, vale aquele pensamento afirmativo de que “as feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”. Com o crescimento dos desfiles das escolas de samba em âmbito internacional, a beleza estética das escolas, bem como as exigências impostas pela própria competição fazem com que as agremiações cada vez mais se tornem escravas de uma estética perfeita e, neste sentido, todas as ações dentro de uma escola de samba acabam sendo no sentido de desenvolver esta potencialidade estética e isso acaba deixando os demais aspectos, que outrora pareciam ter peso dentro de um desfile, em função do primado do visual.

Mas não podemos esquecer dele, o monstro de olhos esverdeados – a INVEJA.
A São Clemente já fazia a profecia em 1990: “Carnavalescos e destaques vaidosos, dirigentes poderosos criam tanta confusão, e o samba vai perdendo a tradição”. Em um meio de grande concorrência como este do carnaval carioca, a inveja existe, embora este seja um pecado que poucos tem coragem de confessar. Pode-se observar também que um vício ou pecado acaba levando a outro, pois a vaidade, o poder e a ostentação que existem acabam favorecendo este sentimento de inveja. Hoje temos seis escolas que gozam dos privilégios de estarem no Olimpo enquanto o restante sofre no purgatório. Não podemos esquecer também de que neste meio artístico o egocentrismo reina absoluto e os carnavalescos são a grande prova disso. Em 2007 perdemos a conta de quantas vezes o “verbo” “paulobarrosnear” foi conjugado na Sapucaí, mas, como já dizia o velho guerreiro: nada se cria, tudo se copia.

Mas carnaval, ainda, é sinônimo de alegria e, sendo assim, a IRA, um pecado que está diretamente associado à intolerância, a guerras entre nações, tem que ser vista de outra forma, uma forma mais eufêmica. Então, que este pecado seja, na verdade, a garra do componente em dar o máximo de si para ver sua escola apresentar o seu espetáculo da melhor forma possível. Os resultados dos últimos anos nos levam a acreditar que a presença de uma comunidade “irada”, pronta para defender sua escola a qualquer custo, seja o grande diferencial das escolas. Beija-Flor é o grande exemplo que temos como modelo de participação mais atuante do tecido social dentro dos desfiles.

Polêmicas à parte, os desfiles das escolas de samba cada vez mais pedem um posicionamento por parte das agremiações de modo a transbordarem a AVAREZA ao seu bel prazer. Este modelo progressista e neoliberal de escola de samba as coloca em um cenário altamente capitalista, em que as exigências se tornam cada vez mais inalcançáveis e isso acaba sendo um fator catalisador no processo de investimento externo na folia momesca. Com efeito, as escolas de samba se vêem obrigadas a adotarem esta política materialista, até mesmo por questões de sobrevivência dentro do famigerado grupo especial, algo que se assemelha bastante ao Darwinismo Social, que também tem uma ligação com o vício capital da inveja e da vaidade. A escolha do enredo da Mangueira para a folia 2008, por exemplo, gerou muitas discussões justamente pelo fato da escola deixar de falar de uma das figuras mais importantes do mundo do samba e da música popular brasileira para ir perder os sapatos no frevo pernambucano.

Seguindo nossa via dolorosa, chegamos ao mais calórico dos pecados – a GULA.
Nossas escolas de samba são seres insaciáveis por títulos e tudo fazem para tê-lo, até mesmo abrir mão de suas raízes, de seus princípios e tradições, como aconteceu com a Vila Isabel recentemente e que vem sendo uma constante em todas as escolas. A fome por títulos e o grande fator motivacional destas antes formadoras de cultura de raiz, hoje conglomerados empresarias do ramo carnavalesco.

À luz de nosso grande filósofo do pecado, Nelson Rodrigues, “Toda Nudez Será Castigada” e, como o carnaval é uma festa profana, a LUXÚRIA, sente-se à vontade no palco do espetáculo, produzido neste paraíso tropical, do lado de baixo do equador, terra das índias que não estão no mapa, dos papagaios de pirata e das alpinistas sociais que vão à frente da bateria, de olho no flash dos fotógrafos. São elas...As emplumadas e siliconadas, que tiram a plebe de cena e exigem e exibem todo o luxo e a ostentação dos swarovsks e dos faisões, que nesta época do ano devem entrar em extinção. E como disse Shakespeare: “que obra de arte é o homem... o exemplo dos animais”.

Não sou Macunaíma, mas já estou com PREGUIÇA a ponto de reciclar Simon Bolívar, transformando-o em Rei Momo; por isso encerro este assunto profano. Mas elas, as escolas, continuam sua saga temperada com muita vaidade, inveja, ira, avareza, gula, luxúria e preguiça; esperando o dia do juízo final, digo, o dia da apuração, em que se ouvirá o tão sonhado “10, nota 10”, que será o grande hiato entre as que irão para o paraíso no sábado das campeãs e as que ainda amargarão um longo ano no mármore do inferno, na bacia das almas.

 

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