

Por Philip Nascimento
VIAGEM PITORESCA AO PAÍS DO CARNAVAL
“A cobra vai fumar, de além mar ao mar de lama...”.
Em um país com escândalos em série, em que somos obrigados a saborear cada capítulo como se fosse um folhetim, mas sem mocinhos; com apropriações da máquina pública para fins pessoas; com balas perdidas e achadas; com desonestidade no varejo e no atacado, que renderiam cifras substanciais caso se tornassem um produto de exportação “Made In Brazil”, temos a nítida impressão de que o que é sério, neste arranca-rabo, é carnaval, como já cantava a São Clemente em 2004. Mas até esta hipótese é motivo de dúvidas nos últimos furacões, digo, nos últimos tempos.
De fato, podemos não ser o Quinto Império da Humanidade, sonho de D. Afonso que, pelo misto de utopia e surrealismo em disseminar este sonho, deve ser um parente distante de Cid Carvalho. Todavia, somos o império do caos, no país da cobra grande. Chacrinha, aquele que veio para confundir e não pra explicar, seria nosso Imperador.
E fugitivos, neste nosso império do caos, temos muitos, e nem a folia momesca escapa, após os últimos furacões. Também foi através de um grande furacão que devassava o Velho Mundo, chamado Napoleão Bonaparte (o pequeno diabo, para os íntimos) que o destino desta nossa Terra dos Papagaios escrevia mais uma página, principalmente no Rio de Janeiro, que serviria de residência para uma realeza pitoresca e seus mais de 15 mil súditos, que o acompanhava nesta aventura e que, duzentos anos mais tarde, o carnaval carioca prestaria uma merecida homenagem a este povo que só queria ver os ratos e urubus largarem suas fantasias.
E na certeza de que não existiria pecado do lado de baixo do Equador, aportam em terras brasileiras um povo que mais lembrava o desfile da Beija-Flor de Nilópolis, no lendário ano de 1989. Certamente a visão da chegada da corte poderia ter sido motivo de inspiração para o mirabolante Joãozinho Trinta.
Empapuçando-se com o Sapoti, vimos um Monarca glutão, uma Rainha louca e uma Princesa cheia de si, que tinha a luxúria como principal pecado, que era sem nunca ter sido, tal qual a viúva Porssina, que odiava copiosamente a idéia de aportar nestas terras ao Sul do Equador, terra de aborígenes e que ainda padecia dos rótulos apontados no Determinismo Geográfico e a idéia de que os povos dos trópicos, por neles estarem, eram de uma natureza intelectual inferior aos das regiões temperadas. Seguindo esta lógica, o sol escaldante que fazia ferver os miolos de quem aqui morava só reforçava esta teoria de que aqui era o fim do mundo. Por conta disso, o sonho de aqui constituir o Quinto Maior Império da Humanidade estaria mais para “Quinto dos Infernos”, segundo a visão da, até então, futura Imperatriz do Brasil – Carlota Joaquina.
Mal sabia ela que o Império de Momo, dois séculos depois, também teria a sua Imperatriz, a Leopoldinense.
Mas o tempo não pára e a Sapucaí é grande. Então seguimos, carnavalizando a História.
Os comemorativos alusivos à vinda da família real para o Brasil estão sendo acompanhados de perto pela prefeitura, que inclusive está apoiando financeiramente as duas escolas que abrirão dos dois dias de desfile – São Clemente e Mocidade. A idéia de fazer um carnaval monotemático aos moldes daquele comemorativo aos 500 anos do descobrimento do Brasil não vingou, mas, de certa forma, o tema estará presente em vários enredos, mesmo que a idéia inicialmente proposta por cada escola não faça uma referência direta à vinda da corte, como é o caso da Vila Isabel, que trará para a avenida um enredo sobre as lutas dos trabalhadores do Brasil, mas que também faz uma referência à presença da família real nestas terras, focalizando a importância da Abertura dos Portos. O tema também será lembrado no carnaval do Salgueiro, que exaltará o orgulho de ser carioca que, através da vinda da corte para o Brasil, vê a Cidade Maravilhosa ser transformada com as benfeitorias feitas pelo Magnífico D. João, que esvaziou os cofres lusitanos nesta tropicalista empreitada.
Sendo assim, a vinda da família real para o Brasil muda a fisionomia e o comportamento do povo do Rio de Janeiro, e isso será lembrado no carnaval da Academia do Samba. Como tratei na matéria anterior, a cidade que os estrangeiros acharam suja, feia e malcheirosa começou a se expandir e cuidar de sua aparência, abrindo-se às modas européias. Nessa época foram construídos chafarizes para o abastecimento de água, pontes e calçadas; abriram-se ruas e estradas; foi instalada a iluminação pública. Isso sem falar no Banco do Brasil, no Jardim Botânico e na Academia de Artes, com aulas ministradas pelo esplêndido pintor e cenógrafo viajante Jean-Baptiste Debret, vindo a pedido da corte para retratar a vida da monarquia, e que acabou sendo fundamental para levar ao conhecimento mundial a cultura da região.
Essas melhorias eram realizadas, muitas das vezes, com a contribuição dos ricos moradores, que recebiam em troca benefícios materiais e títulos de nobreza do príncipe regente. E este recebimento de títulos de nobreza por parte do príncipe mostra que o clientelismo, a troca de favores vem de longe, pois certamente o interesse das famílias abastadas era receber o tal título de nobre e não, de fato, melhorar a cidade: “Para índio um presente, pros franceses um harém”.
Os viajantes que visitavam o Rio de Janeiro se surpreendiam com a rapidez das mudanças sofridas pela cidade. Um deles, o inglês Gardner, comentou: "O grande desejo dos habitantes parece ser o de dar uma fisionomia européia à cidade. Uma das mais belas ruas da cidade é a rua do Ouvidor, não porque seja mais larga, mais limpa e melhor pavimentada que as outras, mas porque é ocupada principalmente por modistas francesas, joalheiros, alfaiates, livreiros, sapateiros, confeiteiros, barbeiros”. Vale ressaltar também que o Salgueiro em 1991, ainda sob o comando da carnavalesca Rosa Magalhães, com o enredo “Me Masso se não Passo pela Rua do Ouvidor”, fez um belíssimo carnaval sobre a referida rua e Rosa usou e abusou do luxo e daquelas características que lhes são peculiares.
“Da carne seca à Notre Dame de Paris,
A nostalgia
Do Rio que era mais feliz
E hoje, eu sei,
Da velha rua que não me esqueci
Meu Salgueiro faz
Enredo na Sapucaí
Da Primeiro de Março
Falta um passo
Pra Ouvidor
E no samba faltava
Esse traço de amor”
Durante o período de permanência de D. João no Rio de Janeiro, o número de habitantes da capital dobrou, passando de cerca de 50 mil para cerca de 100 mil pessoas. Chegaram europeus das mais diversas nacionalidades. Além daqueles que vinham "fazer negócio", muitos outros vinham tentando "fazer a vida". Eram espanhóis, franceses, ingleses, alemães e suíços, entre outros, das profissões mais variadas. Segundo as sábias palavras de Sérgio Buarque, "a sociedade refinava-se, de outro lado, não apenas pelas novidades que lhe traziam os estrangeiros, mas igualmente pelos salões que se vinham abrindo, para as reuniões elegantes, promovidas pela nobreza chegada com a Corte. As residências, em conseqüência, já apresentavam um bom tom, que diferia profundamente das pobres moradias do período anterior".
Podemos afirmar que a vinda da família real para nossa “Pindorama” foi uma espécie de segundo descobrimento do Brasil, de formação e enriquecimento do povo carioca, que já tinha traços indígenas e negros, mas faltava o bolinho de bacalhau e o pastelzinho de Belém. Ora, pois, pois!
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