Aniversariantes do mês:

A equipe do Boletim do Samba parabeniza todos os Sambistas Aniversariantes do mês de Julho e deseja muita luz, paz e saúde. Que Deus lhes conceda muitos carnavais. Abraços!!!

ESPAÇO ABERTO
1- Cris 24/07
SETOR 1

1- Dieguinho Mocidade 05/07

2- Philip Nascimento 20/07

 


Por Philip Nascimento

 

 

 

MILTON CUNHA E O ENREDO DO ENCANTAMENTO




O Pântano de Onde Surgiu a Terra Adorada

O primeiro bloco do espetáculo abriu com o nosso hino maravilhosamente bem cantado. Como sua letra evoca uma natureza exuberante, uma terra de encantos mil, isto trouxe para a arena elementos de nossa fauna e flora: bailarinos eram folhas gigantes e magníficas, cobras sobre rodas deslizavam, garças e borboletas em pleno vôo, e flores se revezavam em danças, bem desenhadas pelo mago Renato Vieira. Camas-elásticas se transformaram em vitórias-régias e um grande fumacê transformava aquela atmosfera em pântano, quase brejo, lugar de onde brotou a vida, a tal da lama primordial. E aí surge a estrela do primeiro bloco, o gigantesco jacaré, cheio de bossa e movimentos, deslizando majestosamente no grande círculo. O passeio do réptil foi maravilhoso e o encantamento era único e deslumbrante. O coração do Maraca bateu forte, e o espetáculo tinha mostrado ao que veio: encantar, sempre encantar com nossos simples símbolos. Vale lembrar que esta primeira parte foi colorida, sobretudo com verde, em várias nuances e alaranjados, com um pouco de vermelho e amarelo. Um belo colorido. Mas aí era hora de entrar o azul, então passaríamos para o segundo bloco do encantamento.

O Barquinho Vai na Praia da Rosa...

Desta água lamacenta do primeiro bloco, surge a água azul e cristalina do segundo momento: o mar entra saltitante com bailarinos, cujos esplendores gigantescos, ainda fechados para o alto, logo se abririam em diáfanos leques, para formar as ondas do mar. Por falar em transparência, a volatilidade, como a alma feminina, delicada, foi a tônica do espetáculo. Ajudada pela iluminação, esta estratégia funcionou muito bem, na arena. A luz vazava os tecidos, nylon, organzas, voils, em belíssimos efeitos. Voltando ao mar, no que as ondas começam a dançar surgem barquinhos, e quando os bailarinos tomam o fundo da arena, se apertando, para que só em meio Maracanã ficasse esta água, aí então, borboletas que eram azuis e brancas tomam a linha da frente, e percebemos o que elas realmente representam: as espumas brancas e flutuantes que vão margear a areia que logo se formará. Lá vêm banhistas, guardas-sol, cata-ventos, redes de esportes de praia, com bolas gigantes sendo manuseadas. Mar azul/espumas brancas/areia da praia: é o trinômio carioca do litoral, e vale ressaltar que a parte dos banhistas, na areia, faz entrar em cena o rosa choque tão característico da obra da criativa e colorida carnavalesca. Muito rosa, misturado com amarelo “cheguei”, dão um ar de verão cítrico aos habitantes da praia de Magalhães. Pronto, terminou a nossa praia. Não terminou? Não, a magia invade a arena, quando o calçadão de Copacabana vem em 50 bandeiras retangulares (novamente as transparências), e as pedras portuguesas parecem estar na vertical, elas correm pelas bordas e diante de uma multidão atônita, elas se deitam, tomam a horizontalidade que lhes é real, mas ficam a dançar, para lá e para cá, ainda que deitadas. Aplausos, muitos aplausos para o segundo bloco, que termina por aí. Era hora de entrar o sonho da garota, menina sonhadora em seu quarto de bonecos a cantar.

Sonhar e Brincar de Encantaria

O Maracanã é o quarto da menina sonhadora, ela está esmigalhada pela cadeira fabulosa e gigantesca, e nada lhe resta fazer senão chamar a companhia de seus bonecos. E como fazer isso? Cantando as antigas canções de ninar do interior, do país e de nossas almas. Boi, boi, boi da cara preta.... Surge o folclore, o folguedo, as fitas (mais uma característica da imagética da carnavalesca), que tanto amarram os cabelos das meninas, quanto decoram as encantarias interioranas. Lá vem Bonecos de Recife, Reisado, Maracatu, Folia de Reis e igualmente, bonecas tapajônicas e palhaços arengueiros. Reis e rainhas, carinhas pintadas e pequenas maçãs marcadas pela equipe do visagista Beto Carramanhos. Um grande boneco-menino, de pinturas tribais no corpo, toma o lugar de todos nós, que ajudamos em uníssono Calcanhoto: pega este menino que tem medo de careta.... Somos todos o menino Brasil, orgulhosos de nossas riquezas culturais. Não há mais cor predominante, pois ao lado do preto dos bois, as cores explodem, múltiplas, e mosaicos de muitos detalhes. Bacana, bacanérrimo...

Fogo, Paz e Samba, na Maravilhosa...

Grandes brasileiros trazem o nosso fogo olímpico. Por outro lado, somos um fogo, um outro tipo de fogo. E não seria nossa pira, uma pira simplória. Teríamos nuances de sonho. E acende-se uma rosa, não de Hiroshima, a rosa com cirrose; a Rosa do Rio é múltipla e abençoada. Fogo literal aceso, hora de acender o fogo que queima nesta cidade e que encanta as delegações: tragam Daniela Mercury para entoar Cidade Maravilhosa, soltem todos os bailarinos que participaram do espetáculo com pedaços de suas roupas, a maioria com a malha de baixo, mas antes da maravilhosa esculhambação do cordão do Bola Preta, deixe dançar a pomba da paz, que antes parecia os inanimados da Ligia Clark. No começo, os bailarinos de Deborah Colker estão manipulando um móbile, um origami, uns pedaços brancos que formam um todo, exatamente como as pequenas obras da grande modernista. No final, é a paz, a pomba da paz que faz voar o bailarino. Paz pedida solte os bichos: sambão, bateria, cordão de sujos, alegria total. As delegações descem de suas tribunas e caem na gandaia, pois esta é a tônica desta cidade que sedia os jogos: aqui, tudo acaba em samba, até abertura de Jogos. Uma doce brincadeira, que sem se levar tão a sério toca o âmago do coração. Desconfiando de si, mostra o quebra-cabeça de sua grandeza, sua contradição, sua alma em apuros. Como se divertir e dançar samba na cidade partida e sitiada? Vamos dançando, encerrando o espetáculo, certos de que conseguimos, de que podemos, de que temos talento. Mas como lidar com todo o resto? Não importa, amanhã a gente pensa. Agora é hora de encantamento, é hora de alegria, é hora de celebração.

Parabéns, Rio.

 

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