

Por Philip Nascimento

BAILA COMIGO MEU AMOR MASCARADO...
Este universo do "carnem levare”, da festa da carne, da saída do homem de sua condição cotidiana, também é carregado de magia, de romantismo e de sonhos, que se manifestam das mais diversificadas formas e conferem ao carnaval um momento em que a realidade pode ser por alguns instantes esquecida. Hoje, apesar deste espírito romântico de outrora estar em desuso, sempre vale a pena darmos uma remexida neste baú da folia, para revivermos ou conhecermos como era o carnaval nos tempos dos bailes de máscaras, do confete e da serpentina; nos tempos do malandro Arlequim, das faceirices da sedutora Colombina e do romântico e ingênuo Pierrô, que justos formaram um dos mais belos triângulos amorosos do imaginário popular.
Nosso jeitinho brasileiro, Macunaímas por natureza, denuncia que estamos mais para as malandragens de Arlequim do que para a ingenuidade de Pierrô. Todavia, dependendo do ponto de vista, somos Pierrôs quando servimos de mote ao circo, o Circo Brasil, onde “malandro é malandro e mané é mané”.E viva Bezerra da Silva!
A Fase embrionária do movimento, a commedia dell’arte, se inicia na segunda metade do século XVI, a partir das feiras, durante o renascimento comercial. Nascida na rua, a commedia dell'arte sempre foi carregada de um espírito de contestação, contrário ao academicismo. Tudo era imediato e em linguagem direta, facilitando a compreensão das platéias instaladas nas áreas sombreadas da praça pública. Os diálogos geralmente eram muito curtos, para provocar risos mais rapidamente, antes de os artistas serem dispersos pela polícia. Das ruas, a commedia dell'arte passou a fazer parte das festas da corte.
A commedia dell’arte pode ser considerada um fenômeno social já que, de maneira pioneira, há a escolha de uma identidade profissional dentro da sociedade no sentido de comprometer-se com a arte. Um fenômeno artístico e social. Nos séculos XV e XVI, as críticas que lançou contra vários segmentos da sociedade,indo deste médicos até carolas, resultaram em proibições, ameaças e castigos. Muitos cômicos de rua tiveram até que emigrar, armar sua lona em outra freguesia.
A tradição dos carnavais, principalmente em Veneza, também influenciou a comédia dell’arte, com suas máscaras, que ganharam fama em todo o mundo pelo detalhamento, pela beleza na elaboração e pela riqueza com que eram apresentadas, além de sua comicidade e do mistério que as cercavam. Durante o carnaval, nenhum homem usando máscara poderia ousar carregar algum tipo de arma consigo (costume habitual na época), pois se considerava que um homem de máscara havia se desvinculado de sua identidade cotidiana e, portanto, estaria assumindo outra personalidade de tal maneira que não poderia ser totalmente responsável por suas ações, o que nos leva a concluir que hoje elas, as máscaras, seriam de grande utilidade em nossa capital federal.
Este gênero cênico exerceu grande fascínio por todo o Velho Mundo e influenciaram muitos atores, dramaturgos e diretores, como Shakespeare e Molière e,claro,também foi incorporado ao carnaval brasileiro,assim como outros movimentos vindos de além mar...
As máscaras permitiam a quebra das barreiras sociais e os ricos podiam aproximar-se dos pobres sem serem socialmente condenados ou comprometidos. E esta tradição é uma das pilastras do genuíno carnaval, pois as máscaras são, na verdade, a materialização, a personificação deste espírito cênico em que as sociedades estavam embebidas, onde poderia ser vista uma mixagem social do “luxo e a pobreza no meu mundo de ilusão”.
Com o passar do tempo, festas carnavalescas se proliferam em toda a Itália e também se modernizam, mas as máscaras permanecem. Chegaram cá por estas bandas na primeira metade do século XIX, tendo acontecido o primeiro baile de máscaras em solo carioca, mas precisamente no Hotel Itália. Foi também neste ambiente (Hotel Itália) que aconteceu outro carnaval importante, pois coincidiu com as festas comemorativas ao casamento de Dom João com a infanta Carlota Joaquina, orgulho da Casa dos Borbouns. E neste clima festivo vale ressaltar também que, alguns anos antes, o entrudo desembarcara no Brasil, com a promoção de uma festividade em homenagem ao rei Dom João, restaurador do trono de Portugal. Tal festa durou uma semana, e aí já se percebia a vocação deste povo brejeiro para comemorações.
Desejos e tentações poderiam ser realizados na proteção do anonimato das máscaras, assim como era uma ótima maneira de freqüentar os lugares proibidos. Seu uso na commedia dell'arte era tão importante que se passou a chamá-la "comédia das máscaras". Os atores usavam meias máscaras, que deixavam a parte inferior do rosto descoberta, permitindo uma fonação perfeita e as respirações mais cômodas, adequadas à necessidade do jogo cênico. A máscara proporcionava o imediato reconhecimento do personagem pelo público.
E muitos desses personagens são inteiramente relacionados com o carnaval. A Colombina, uma criada tão bela e refinada quanto a filha do patrão, era pivô do triângulo amoroso que tinha ainda o apaixonado Pierrô e o malandro Arlequim, que conhecera a matreira quando ambos eram ainda crianças, e juntos cresceram na maior das cumplicidades: inventavam partidas para enganar os patrões ou conseguir para a barriga um prêmio de consolação pelo trabalho de escravos. A verdade é que era muito raro alguém vê-los de fato a trabalhar. E nas raríssimas vezes em que eram apanhados, enquanto eram castigados, riam em segredo e trocavam olhares que prenunciavam novas transgressões. Para tentar conquistar o Arlequin, a romântica Colombina cantava e dançava graciosamente nos espetáculos.
Arlequim era um servo espertalhão, preguiçoso e insolente que se fazia de ingênuo. Costumava entrar em cena pulando, dançando e fazendo acrobacias. Sempre pregava peças nos outros e se livrava das confusões com sua agilidade. O Pierrô é outro personagem do estilo teatral Commedia dell'Arte, assim como a Colombina e o Arlequim. Surgiu na França do século XIX. O serviçal vivia suspirando de amor pela Colombina, o que lhe fazia alvo de piadas. Sua atitude e sua imagem inspiraram os palhaços de circo.
Eram,todos eles, intérpretes de um mundo de extremos, onde sentimentos e pensamentos eram reduzidos ao estereótipo e a máscara intermediava a simplificação máxima. Não existiam nuances na esperteza de Arlequim, na faceirice de Colombina e no ar romântico do Pierrô, pois a essência era bem maniqueísta e planificada, tendo os personagens características fixas, sem variações psicológicas,
ou esfericidade.
E esta matreira Colombina, o esperto Arlequim e o ingênuo Pierrô são figurinhas mais que carimbadas nos desfiles das escolas de samba. Assim como o estado da Bahia é o mais cantado na avenida em todos os tempos,certamente os figurinos destes três personagens da commedia dell’arte são os mais vistos na Sapucaí.
Muitas mudanças acontecerem neste intervalo de tempo entre a Colombina Cibernética da Mocidade 2007 e a Colombina de corpete apertado, mangas com orlas brancas, avental,gola e meias brancas a contrastar com o preto dos sapatos;lá...No início de tudo...
“E como será, além do infinito, o sonho deste povo tão bonito...”.
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