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Por Philip Nascimento

 

 

 

 

INVASÕES BÁRBARAS NO CARNAVAL MONOPOLISTA

 

A sociologia define as relações de poder como uma espécie de habilidade de impor sua vontade sobre os outros, mesmo que haja certa resistência. Em outras palavras, o poder pode também ser caracterizado como a não alternativa capaz de provocar a desobediência. E as relações de poder sempre estiveram presentes em algum momento da história dos desfiles com a hegemonia, a autoridade suprema de uma determinada escola com sua cultura de desfile, com sua política de desfilar que acaba sendo o parâmetro de qualidade. É possível monopolizar a perfeição? Não. Apenas adoramos a perfeição porque não a podemos ter, vide o bravo periquito da asa quebrada. Ademais, a perfeição possui um grande defeito: tende a ser enfadonha.         

Contudo, o poder que esteve presente no desfile da Beija-Flor, onde não se via alternativas que fossem capazes de lhe negar o título, foi eficaz em uma análise comparativa. No carnaval em que praticamente todas as escolas escorregaram, tivemos que ser obedientes a Beija-Flor, mesmo que a escola tenha feito apenas um desfile suficiente para alcançar seus objetivos. Uma competência indiscutível, mas é preciso salientar que a escola precisar rever seus conceitos de enredo, que além de bastante complexos não são bem realizados na avenida no que tange a transmissão das informações contidas na linguagem visual, e isso em uma disputa mais acirrada poderia ter custado caro. Laíla, sempre ávido por essa tal perfeição, com certeza olhará com mais cuidado para este quesito que requer uma suavização na escola de Nilópolis.

O poder da linguagem é cada vez mais necessário e a revolução no quesito Comissões de Frente é um reflexo disso. O luxo presente nos desfiles é sempre agradável de ver, mas a leitura do enredo também é edificante e neste aspecto Renato Lage e Rosa Magalhães foram bastante felizes em suas propostas justamente por adotarem uma linguagem mais equilibrada. O desfile do Salgueiro era compreensível através do samba por um cego e da plástica por um surdo, mas nunca deixando as singularidades da escola de lado, tanto que Salgueiro desfilou como Salgueiro. O mesmo se pode afirmar do trabalho de Rosa Magalhães, que continua sendo a melhor figurinista do carnaval em uma linguagem que consegue camuflar a falta abundante de recursos e conjugar de forma contrabalançada a pompa e a elegância característica da Imperatriz, mas sem prejudicar a compreensão. Salgueiro e Imperatriz não figuram entre as escolas mais abonadas do carnaval carioca, mas seus carnavalescos deram mostras de que há meandros singelos na linguagem que atuam de forma operacional.     

Com efeito, acredito que os resultados apontaram que o dinheiro é sim importante para que se possa trabalhar com mais conforto e montar uma boa estrutura – vide Beija-Flor – mas não é suficiente. Comentava antes do carnaval sobre as escolas que entravam na Sapucaí campeãs e as que saiam campeãs e muito do que disse acabou se concretizando. Grandes afortunadas do carnaval mais uma vez tropeçaram nas próprias pernas, numa mostra de que não se vence carnaval somente com a abertura dos cofres. Trabalho de barracão definitivamente não é suficiente para apontar candidatas ao título. No Grupo Especial algumas favoritas ruíram num passe de mágica como Vila Isabel, Grande Rio e Viradouro. Já no acesso, sobrou dinheiro no riquíssimo e poderoso desfile da Rocinha, mas faltou competência e como ela mesma já cantou “dinheiro não compra a felicidade”.

Aliás, foi bastante animador ver o trabalho do carnavalesco Fábio Ricardo em sua primeira experiência solo. O desfile que a Rocinha fez no acesso sob o comando deste jovem e talentoso artista foi de uma qualidade inenarrável. A chuva certamente tirou um pouco o brilho do belo conjunto visual, mas foi um trabalho que sem sobra de dúvidas deixou todos embasbacados e estarrecidos. Muitos poderosos do especial já devem estar de olho nele. E é sempre bom ver que está havendo uma oxigenação quanto à demanda de artistas no mercado.

A Mangueira de Max Lopes indiscutivelmente sentiu a “presença da ausência” do pupilo Fabinho. Mesmo com uma temporada de preparativos nada tragável, onde colocou na bancarrota o nome desta tradicional escola, a Mangueira, com o patrocínio de que dispunha para colocar o seu carnaval na rua não podia de forma alguma ter feito um desfile plasticamente aquém do esperado. Frisando também que a escola pecou na leitura do enredo, que poderia ter sido mais explorado. Aliás, bem mais explorado, diga-se de passagem. Rosa Magalhães, ano passado na Imperatriz, mesmo destinando apenas o último setor de seu desfile ao frevo, foi mais bem sucedida. Todavia é preciso afirmar que a comunidade da Mangueira é um rochedo; já passou por maus bocados nos anos 90 e teve fibra para dar a volta por cima, mesmo que o cenário presente seja desfavorável.                 

Foi também um carnaval em que o poder que buscava a liberdade de expressão acabou provocando o efeito contrário. Paulo Barros em muitas ocasiões esquece que o carnaval não é feito para ele. Suas idéias são interessantes, mas não valoriza o componente, o samba, tampouco a autenticidade da festa. O que vimos foi algo que necessita de certa carnavalização. As escolas de samba devem ser em sua plenitude, produtoras de uma linguagem “carnavalizável” e a Viradouro que nos foi apresentada mais uma vez não dispunha de elementos ou atributos que nos remetessem a ela mesma. A frase “Não se Constrói o Futuro Enterrando a História” que estava presente na alegoria que antes representava o holocausto é bastante pertinente e ilustra bem o que vem acontecendo.

O carnaval de Paulo Barros, antes de qualquer coisa, deve continuar sendo carnaval e, para isso, seria interessante uma adequação de toda essa inovação aos princípios do evento e, sobretudo aos pilares de uma escola como a Viradouro que, embora seja rotulada pelo senso comum como uma escola sem identidade, possui sim sua história, por mais sutil que esta seja. Mesmo que Marco Lira forneça toda a liberdade de que Paulo Barros necessita é preciso que se tenha bom censo em observar que a escola de Niterói já possuía uma história, e que esta deve ser sempre lembrada e inserida na atual proposta, contrabalançando assim esta difícil equação. Neste aspecto, Cahê Rodrigues foi fenomenal, pois oxigenou a Portela com toques de modernidade, mas sem deixar de lado ícones indispensáveis em Madureira.     

A busca por liberdade de expressão, o poder de expressão é deveras necessário em uma festa como o carnaval, cujo mote, ou um deles, é justamente esta busca por espaço, por ser ouvido e compreendido, mas hoje se percebe que falta também liberdade em diversos outros aspectos e não somente na liberdade artística como se queixara o carnavalesco da Viradouro. A verdadeira liberdade de expressão que foi presenciada estava lá no Acesso, mais precisamente no Império Serrano, que sob uma tempestade fez um desfile no mínimo emocionante. O povo da Serrinha, mesmo desfilando longe dos holofotes do Grupo Especial, lavou literalmente a alma e demonstrou que a liberdade de expressão está vinculada ao orgulho por sua escola esteja ela onde estiver, e é este tipo de libertação que anda em extinção, em estado de obsolescência. Serrinha passou linda e poderosa porque sabe que enverga, mas não quebra. O grupo de Acesso – logicamente pela participação do Império Serrano – bateu recordes de participação do publico, além de ter melhorado a qualidade dos desfiles em relação ao ano anterior.       

Mas, voltando ao enérgico e famigerado Grupo Especial, nos damos de cara com a pergunta que não quer calar: Por que os bárbaros invadiram o império romano? Sangue novo no desfile das campeãs e finalmente o povo de Madureira, Ramos e Tijuca conseguiram varrer o sal que jogaram em suas terras. As suspeitas de manipulação dos resultados nos faziam acreditar que o resultado deste carnaval seria bem mais coerente com a realidade. Foi? Enfim...O azar do urubu foi achar que o boi estava morto. Este foi o insólito ano da redenção dos pecados.

O fato é que a distância entre o purgatório e o Jardim do Éden foi profundamente abalada, encurtada; diferentemente dos dois últimos anos em que figuravam no seleto grupo de campeãs as mesmas escolas em seu ritual de dança das cadeiras. Vimos grandes favoritas ruírem, perderem seu precioso gás em plena Sapucaí ao passo que escolas completamente desacreditadas ganharam o fôlego necessário para não serem vitimas do conformismo e da antropofagia do carnaval de uma só escola. As relações de poder de motivação e de poder de persistência foram vistas em Salgueiro, Portela e Mocidade.

Compreendo que mais um ano sem novidades no desfile das campeãs seria de fato bastante duvidoso – como já vinha sendo - tendo em vista que ano passado já deveria ter havido mudanças com a entrada da Academia naquele grupo. A recompensa só veio este ano e de uma tacada só Salgueiro, Portela e Imperatriz; além da Mocidade, que apesar de não ter voltado no desfile das campeãs mostrou que está viva e com garra, espantando o grande fantasma de Renato Lage, que vez por outra rondava a escola. Mais um exemplo de liberdade de expressão de que falava anteriormente. A identidade de Padre Miguel não está na sua indumentária, mas sim em sua gente. E como foi bom ver aquele povo que mesmo desamparado caminha com as próprias pernas, acreditando novamente na velha Mocidade guerreira.  

Depois de aberta essa caixa de pandora no carnaval desse ano, fica sob nossa alçada a esperança de que o trabalho apresentado por essas gigantes do samba seja aprimorado para que ganhe solidez, consistência e não fique apenas na quimera ou no velho dito popular que afirma que alegria de pobre dura pouco. Pela determinação e persistência já provaram que possuem fibra para envergar mais não quebrar, mas em um grupo onde se passa rasteira em cobra, olhos de lince são sempre concernentes.          

 

 

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