

Por Philip Nascimento
A TRANSLOUCADA ORIGEM DA VIDA...
PREÂMBULO:
A chama apagou...
E agora, Rio?
Agora é hora de disputas de samba nas quadras das escolas.
E quem disse que a chama apagou...
Mas antes vamos contar como tudo começou...
UM
...Como já dizia as sagradas escrituras, “no princípio era o verbo”, a sinopse, em nosso caso. Para as escolas de samba, a geratriz de toda a emoção levada para a Sapucaí e mostrada ao mundo parte de uma boa e clara sinopse. Principalmente este último adjetivo. Segundo reza a lenda, elas, as sinopses, são os espermatozóides que dão origem à vida. E como todo espermatozóide de categoria, sabe o ponto de partida, mas o futuro é uma incógnita. A esta altura, muitos já devem estar pensando “que criatura mais louca”, mas é verdade. Não a minha loucura, mas esta teoria sobre as sinopses. Garanto que sou menos louco que muita sinopse Frankenstein que anda solta por aí, recém chegada do além, ou até mesmo psicografada. Algumas são de arrepiar, de ter uma síncope, de deixar o sistema nervoso nervosíssimo, diria até. Mas, de médico e de Paulo Barros todo mundo tem um pouco.
UM E MEIO
Conceitualmente, a sinopse de enredo é o texto-base que serve de ponto de partida para carnavalescos desenvolverem o desfile, além de servirem de apoio aos compositores na criação dos sambas. Cabe a ela apresentar a história que se pretende contar na avenida. A função que é conferida a este texto, subgênero do resumo, aparentemente apresenta-se como algo bastante simples, todavia não é o que vemos em alguns casos, em que as sinopses atrapalham mais que ajudam, sendo melhor que nem existissem, uma vez que perdem sua principal função, que é, como disse, a de servir de auxílios aos compositores.
DOIS
E assim...Abram alas para o espetáculo de sinopses Tratado de Tordesilhas, poesias modernistas, teses acadêmicas, caça-níqueis, textos carregados de simbologia ou vazios demais, enfim, ao que tudo indica, os carnavalescos estão querendo ganhar o carnaval já na sinopse. É o tal do mundo instantâneo... Diante desta necessidade desenfreada dos carnavalescos de darem o egocêntrico ar de sua graça já na sinopse, bem que este “simples” texto deveria virar quesito, já imaginaram? Seria um verdadeiro “soltam os bichos”. Os compositores, coitados, teriam que contratar detetives para encontrar a história do enredo nas indecifráveis e inenarráveis linhas do referido texto surrealista.
DOIS E MEIO
Fazer uma boa sinopse não é fácil. Além de atentar a estes pontos, ou seja, criar um texto simples, é preciso envolver o leitor. Envolver o leitor? Sim. Da mesma forma que as sinopses de TV e cinema, as sinopses de enredo precisam dar o tom da narrativa, caracterizar os personagens, ambientar o leitor - em nosso caso o compositor - na atmosfera onde a história está inserida, o contexto sensitivo, pois isso é fundamental na construção de um samba. Esta é a parte mais difícil para os carnavalescos, pois um erro no tom e tudo pode ser mal interpretado ou avaliado de uma forma que está em desacordo com as idéias que o artista, a princípio, quis que fossem afloradas, transparecidas.
TRÊS
Vejamos o caso da Mocidade, que apresentou duas sinopses para o mesmo enredo. Reparem os dois trechos a seguir:
“Preocupado com os avanços territoriais promovidos pelos muçulmanos no norte da África, Dom Sebastião já preparava, desde 1573, uma organização militar dentro do território português. Portugal pretendia, então, dar continuidade a uma política de conquistas territoriais, projeto que visava à volta de Portugal como poderio mundial econômico e político (...)”.
“Abençoado seja El-Rei Afonso Henriques, o primeiro dentre vários, aquele que recebeu do próprio Cristo, em sonho, nos campos de batalha de Ourique, a missão de transformar Portugal no “Quinto Império Universal", suplantando a Babilônia, a Pérsia, Roma e Grécia. Bendito seja Portugal, pois apenas as nações grandes de coração e de alma podem sonhar os sonhos que lhe são maiores e dentre estas, a portuguesa foi a que certamente acreditou que poderia realizá-los. E talvez por conta disso tenha se tornado tão gloriosa e reluzente, ofuscando poderosos reinos, alguns de extensões territoriais infinitamente superiores as suas (...)”.
TRÊS E MEIO
Observem que no primeiro caso há uma descrição mais retilínea da história, ao passo que no segundo percebemos a efervescência, o espírito patriota e esperançoso que o enredo do carnavalesco Cid Carvalho se propõe a desenvolver em seu desfile. Reparem que o poder dado às palavras acaba norteando o sentido do texto. É um exercício de sedução.
QUATRO
E são estes doze embriões – onze, na verdade, pois o da Portela ainda está na incubadora – que farão as quadras ferverem nas eliminatórias, ao som de sambas produzidos por nossos bravos escritórios, digo, compositores, que lapidam esta pedra em estado bruto e extraem diamantes. Estaremos de olho na Sapucaí “pra ver a história sair do papel”, como diz um belíssimo samba concorrente da Mocidade.
QUATRO E MEIO E ÚLTIMO
E quem disse que a chama apagou...
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