
Por Rafael Rezende
O espelho de Diogo Nogueira
Dia 13 de novembro, quando ouvir seu nome na lista dos indicados a Artista Revelação, na categoria principal do Grammy Latino 2008, Diogo Nogueira provavelmente se lembrará daquele que é seu espelho: seu pai João Nogueira. Se não fosse o pai sambista, é possível que Diogo não tivesse ido tão longe, ou quem sabe ele estaria em outra profissão, bem longe do samba que o levou ao Texas para assistir à premiação.
O inegável é que todos nós precisamos de heróis não ficcionais para nos espelhar, que tenham uma fonte inesgotável de amor e possam nos ensinar a caminhar com passos seguros: são pessoas-exemplo que formam a base sólida em nossas vidas.
Neste contexto, João Nogueira e Paulo César Pinheiro compuseram a bela canção Espelho, gravada por João em 1977, em vinil homônimo; posteriormente, compuseram a seqüência Além do espelho.
As canções ganharam a versão de Diogo Nogueira, que fortaleceu a expressividade delas ao interpretá-las, por reforçar o valor do espelho humano que, no fim das contas, todos nós somos. Assim, a canção permite compreender melhor a importância de João Nogueira na vida do filho, inclusive na área profissional, já que hoje Diogo é um cantor e compositor de samba, amante da Portela, como seu pai, e utiliza de boa parte do repertório dele em seus shows.
As músicas ainda vão mais além da perpetuação do espelho na família Nogueira pelas gerações; trata-se de temas universais: o amor, a base, a perda. São vínculos muito fortes que se criam e nos sustentam pela vida, e superam a morte.
Da mesma forma ocorre com o samba, que também funciona como um espelho, refletindo um povo e uma cultura. E como “quando o espelho é bom/ Ninguém jamais morreu”, o samba agoniza mas não morre.
Que além do espelho haja sempre mais espelho.
Espelho
João Nogueira
Composição: João Nogueira e Paulo César Pinheiro
Nascido no subúrbio nos melhores dias
Com votos da família de vida feliz
Andar e pilotar um pássaro de aço
Sonhava ao fim do dia ao me descer cansaço
Com as fardas mais bonitas desse meu país
O pai de anel no dedo e dedo na viola
Sorria e parecia mesmo ser feliz
Eh, vida boa
Quanto tempo faz
Que felicidade!
E que vontade de tocar viola de verdade
E de fazer canções como as que fez meu pai (Bis)
Num dia de tristeza me faltou o velho
E falta lhe confesso que ainda hoje faz
E me abracei na bola e pensei ser um dia
Um craque da pelota ao me tornar rapaz
Um dia chutei mal e machuquei o dedo
E sem ter mais o velho pra tirar o medo
Foi mais uma vontade que ficou pra trás
Eh, vida à toa
Vai no tempo vai
E eu sem ter maldade
Na inocência de criança de tão pouca idade
Troquei de mal com Deus por me levar meu pai (Bis)
E assim crescendo eu fui me criando sozinho
Aprendendo na rua, na escola e no lar
Um dia eu me tornei o bambambã da esquina
Em toda brincadeira, em briga, em namorar
Até que um dia eu tive que largar o estudo
E trabalhar na rua sustentando tudo
Assim sem perceber eu era adulto já
Eh, vida voa
Vai no tempo, vai
Ai, mas que saudade
Mas eu sei que lá no céu o velho tem vaidade
E orgulho de seu filho ser igual seu pai
Pois me beijaram a boca e me tornei poeta
Mas tão habituado com o adverso
Eu temo se um dia me machuca o verso
E o meu medo maior é o espelho se quebrar (Bis)
Além do espelho
Diogo Nogueira
Quando eu olho o meu olho além do espelho
Tem alguém que me olha e não sou eu
Vive dentro do meu olho vermelho
É o olhar do meu pai que já morreu
O meu olho parece um aparelho
De quem sempre me olhou e protegeu
Como agora meu olho dá conselho
Quando eu olho no olhar de um filho meu
A vida é mesmo uma missão
A morte é uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu
Sempre que um filho meu me dá um beijo
Sei que o amor do meu pai não se perdeu
Só de olhar teu olhar eu sei o seu desejo
Assim como meu pai sabia o meu
Mas meu pai foi-se embora no cortejo
E no espelho chorei porque doeu
Mas olhando o meu filho agora eu vejo
Ele é o espelho do espelho que sou eu
A vida é mesmo uma missão
A morte é uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu
Toda imagem no espelho refletida
Tem mil faces que o tempo ali prendeu
Todos têm qualquer coisa repetida
Um pedaço de quem nos concebeu
A missão de meu pai já foi cumprida
Vou cumprir a missão que Deus me deu
Se meu pai foi o espelho em minha vida
Quero ser pro meu filho espelho seu
A vida é mesmo uma missão
A morte é uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu
E o meu medo maior é o espelho se quebrar
Textos Relacionados:
- Desde que o samba é samba é assim

