
Por Augusto Carazza
Bicho Homem...
“O homem é um animal que indaga obsessivamente sua origem” (Beija-Flor, sinopse, 1996)
No afã de responder as perguntas “De onde vim? Para onde vou?”, que o inquietam desde sempre, o homem deu início a mais ambiciosa experiência científica da história. No último dia 10/09 entrou em funcionamento, na Suíça, a máquina de colisão de partículas (Grande Colisor de Hádrons) do Cern (Organização européia de pesquisa nuclear), que pretende reproduzir, em escala menor, as mesmas condições do Big Bang, que, supõe os cientistas, seja o estopim da criação do universo. Iniciativa fantástica que só corrobora o aspecto ‘revirante’, curioso deste animal. Salve a curiosidade! Ou como diz Max Lopes: “Não me proíbam criar, pois preciso curiar!”.
Tal curiosidade (o que somos?) também atiçou a mente de nossos carnavalescos que, invariavelmente, trouxeram-nos enredos instigantes, visando “dar conta” deste mundo, deste Haver. Começamos, por exemplo, pelo Aurora do Povo Brasileiro, de 1996, idealizado pela “vovozinha” Milton Cunha (divertido, como sempre, foi assim que ele se identificou para uma repórter da TV Globo ao explicar o enredo). O ponto de partida foi o fóssil feminino de mais de 10 mil anos, descoberto pela equipe da arqueóloga Niéde Guidon, na Serra da Capivara, Piauí, chamada de Aurora por Milton. O começo do Brasil, portanto, ocorreu a milhares de anos antes da chegada dos portugueses. Já havia algo por aqui... Apesar da exaltação à Aurora, não há como confirmar, de fato, um início do Brasil, do planeta ou do universo e o refrão do samba da Beija evidencia esta angústia: “Ô..Ô..Ô.. “Mãe Negra, África! Diga quem eu sou, de onde vim, para onde vou”.
As incertezas continuam: “A Nossa Aurora é assim, começo... Desconheço... Que dirá o fim”. Esta parte do samba segue o texto do Milton que dizia: “e assim como não tivemos começo, não teremos fim”. Do ponto de vista psicanalítico, isso é bem possível, afinal o Não-HAVER não Há, ou seja, a morte não Há. A razão é muito simples: não temos consciência da morte (do ponto de vista do indivíduo), assim como não tivemos consciência de nosso nascimento. De repente, existimos... Estamos, aqui, escrevendo, falando, brigando, “trepando” (Ops!), “havendo”, mas não temos a mínima idéia de como isso aconteceu. O mundo é místico...
Lidar com o desconhecido nos faz criar explicações metafísicas (sobrenaturais) para dar algum sentido à vida, embora, é bem provável, que não Haja. Ela – um acaso? – é mais uma resistência à morte do que uma propulsão a existir. Não encontramos vida em qualquer lugar. Sua observância no Universo não é corriqueira. Milton, portanto, recorre ao criacionismo para solucionar o seguinte enigma:
“O Homem veio do macaco, Que veio de uma célula aquática Num primitivo mundo chamado Pangéia. Pangéia veio das entranhas do planeta Terra, Que veio da reunião de gases soltos, Que sobraram da explosão do Big-Bang. Ainda assim e sempre, Foi Deus Quem apertou o primeiro botão!”
Os cientistas do Cern buscam exatamente este “ser” que apertou o botão, e sabem que há um risco em tal empreitada. Risco pequeno, é verdade, porém o experimento pode gerar um buraco negro, que engoliria a própria Terra. Mas, isto é uma visão pessimista demais e com mínima chance de acontecer. Agora, se acontecesse não deixaria de ser um fenômeno instigante, digno de ser experimentado.

Por enquanto, já que a máquina de colisão de partículas está ‘engatinhando’, é melhor acreditar no refrão do samba da Mocidade, de 1996, que dizia: “olha para mim, diga quem sou. Eu sou o espelho, sou o próprio Criador”. Pois, assim, ratificamos a Fé de que tudo, que aí está, pertence ao homem e a algo que, de algum modo, reflete-o. Apesar de sua vocação para a destruição, o ser humano consegue ir mais além: “gênios, artistas inventores, fazem um mundo diferente, mexem com a vida da gente, dando asas à imaginação”, afinal ele faz uma bomba muito bem feita, mas, também, enredos e sambas que nos arrepiam.... Qual sua origem?
MATÉRIAS RELACIONADAS:
- Revirão do Samba - Lage, Magalhães e Barros – Três histórias de ‘reviramento’ no carnaval carioca.

